Tribuna do Leitor

Cassandra e Obama


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Há algumas semanas assistimos perplexos e horrorizados imagens apocalípticas de terror e barbárie. Diriam os precipitados e mais supersticiosos: “São os sinais dos fins dos tempos”! Outros arautos do caos diriam: “Não é preciso ir longe! Não é preciso ir ao Oriente! Não é preciso encontrar o Caminho das Índias para ver a desgraça alheia! Ela está entre nós, todos os dias! Na eterna batalha da sobrevivência do dia-a-dia”.

Veja, caro leitor, como é o raciocínio dos incautos e pessimistas: dilúvios arrastam, templos desabam, crises econômicas, sociais e morais avolumam-se impactando em nossos corpos, bolsos e mentes. Dessa forma, o medo impõe renúncias e privações em vários aspectos de nossa existência. Atinge a todos nós, mas em diferentes graus. Logo, pode transformar-se em fobias.

Ora como espectadores, ora como protagonistas de um drama sublime e infernal observamos com os olhos marejados, misto de impotência e insegurança, o Anjo da Morte ceifar inesperadamente os membros de nossa espécie. Somos obrigados diante das tragédias que nos envolve como marionetes a esperar o nosso momento. É uma sensação angustiante!

Porém, ouso dizer, não confiemos e não sejamos como essas “cassandras decaídas”. Com cautela e fé é possível acreditar no futuro. Isso é possível!

Observem os Estados Unidos da América. “Com brilho histórico: enterrou formalmente o preconceito racista que ainda prevalecia em algumas camadas da sociedade”.

Como profissional da educação, estou às vésperas do fim do recesso acadêmico, preparando planos de ensino, planogramas, aulas e novidades para os meus alunos. Confesso que fiquei emocionado nesses dias que separam do ócio criativo a saudável labuta reler deliciosamente o discurso eloqüente de Obama. O trecho final é comovente: “América. Diante dos nossos perigos comuns, neste inverno de privações, lembremo-nos dessas palavras eternas. Com esperança e virtude, vamos enfrentar mais uma vez as correntes geladas e suportar as tempestades que podem vir. Que os filhos de nossos filhos possam dizer que, ao sermos testados, nos recusamos a encerrar essa jornada, que não recuamos, nem vacilamos, e com os olhos fixos no horizonte, e a graça de Deus sobre nós, vamos propagar o grande dom da liberdade e entregá-lo a salvo para futuras gerações”.

Provocado e instigado por essas palavras firmes e responsáveis do 44° presidente dos Estados Unidos da América transcrevo alguns trechos marcantes para reflexão e análise: “Saibam que a América é amiga de cada nação e de cada homem, mulher e criança que busca um futuro de paz e dignidade, e estamos prontos para liderar mais uma vez”. Obama sinaliza que a convivência pacífica entre os homens é o fator que propicia a ação conjunta. A ausência de violência é necessária, pois, na atividade humana da ação, não se objetiva atingir determinado fim, mas a descoberta de uma meta comum que sirva como elemento aglutinador.

Em outro trecho no discurso testemunhado por 1,8 milhão de pessoas em Washington, Obama afirma decididamente em tom contemporizador de líder natural: “lembrem-se de que gerações anteriores enfrentaram fascismos e comunismo não só com mísseis e tanques, mas com alianças vigorosas e convicções duradouras. Elas compreenderam que nosso poder apenas não pode nos proteger, não nos qualifica a fazer o que quisermos. Elas sabiam que nosso poder cresce com seu uso prudente; nossa segurança emana da justiça de nossa causa, da força de nosso exemplo, das qualidades moderadas de humildade e contenção”. O verdadeiro líder não ameaça, dialoga com seus pares.

A eleição e a posse de Obama foram grandes momentos da história. Que seu governo também seja. Como afirma o jornalista Carlos Heitor Cony, da Folha de São Paulo: "Tudo dependerá agora da capacidade de um homem resistir às pressões da máquina do complexo industrial-militar".

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é cientista político e coordenador do curso de Relações Internacionais do Iesb-Preve - jreferraz@hotmail.com

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