Já falamos diversas vezes nesta coluna que o ar condicionado não é apenas um acessório de conforto ou um luxo dispensável. Qualquer um que viagem bastante sabe da diferença entre viajar com o vidro aberto, com barulho e calor insuportável ou fazer o mesmo trajeto com os vidros fechados e o ar condicionado ligado. Chega-se ao destino mais inteiro, menos cansado e descansado. Mas sempre tem aqueles que ouviram falar não sabem de onde e saem por aí repetindo que o ar condicionado aumenta o consumo, que tira potência do motor, sem nunca ter conferido isso na prática ou ter tipo capacidade de medir e comprovar antes o que estão falando. Baseados nisso, compram carros sem o equipamento e com o tempo se arrependem...
Verdade seja dita: os equipamentos modernos de ar condicionados “roubam” cerca de 2 a 5% da potência do motor, dependendo do modelo e do tamanho do motor. Conseqüentemente, ao estar ligado, faz com que o consumo aumente um pouco, mas isto é da ordem de 0,5 ponto na escala de consumo, ou seja, se o carro faria 12 km/l na estrada sem o ar, passaria a fazer 11,5km/l com o ar ligado, o que convenhamos não é muito prejuízo em comparação com o benefício do conforto... Com relação à perda de potência, um motor com 100 CV perderia de 2 a 5 CV com o ar ligado, continuando ainda a andar muito bem. Equipamentos modernos têm um sensor que desliga temporariamente o compressor do ar condicionado durante acelerações bruscas, como em ultrapassagens, situação em que se precisa de toda a potência disponível no motor. Logo após perceber que a aceleração voltou ao normal, o compressor é reconectado.
Como disse, o ar condicionado automotivo não é apenas para conforto, mas para segurança também. Além de resfriar o ar interno da cabine, ele também o desumidifica. Sua ajuda no desembaçamento de vidros é fundamental. Em situações de chuva ou frio externo, a tendência é de embaçamento interno dos vidros por estar mais quente dentro do que fora. Com chuva, se passar paninho ou a própria mão no vidro, só vai piorar as condições de visibilidade. Ligar o ventilador soprando para o pára-brisa só vai piorar ainda mais, pois este soprará ar quente e úmido interno sobre um vidro frio, causando a condensação do vapor e o embaçamento. O correto é ligar o ar condicionado na velocidade média e soprá-lo para o pára-brisa e não para os passageiros. Assim, o vidro desembaçará mais rápido. Se a temperatura cair muito chegando a incomodar, basta ligar o aquecedor e temperar o ar, deixando-o em temperatura mais agradável sem causar novo embaçamento. Carros de luxo mais modernos dispõem de ar condicionado digital, que faz esta regulagem automaticamente em função da temperatura escolhida. Seleciona-se a temperatura desejada e o próprio equipamento dosa a mistura de ar quente com ar frio até atingir a temperatura desejada. Alguns permitem regulagens para duas ou mais zonas internas, com o mesmo princípio de funcionamento.
Aliás, o controle e distribuição do fluxo de ar dentro do habitáculo merecem um comentário à parte. O ar externo é captado geralmente pela parte frontal inferior do pára-brisa, logo após o capô do motor. Portanto, depois de um tempo funcionando o motor, este ar é captado mais quente que o ambiente. Admiti-lo dentro da cabine poderá aquecer levemente o ambiente interno. Compete-nos regular e distribuir adequadamente o fluxo interno de ar através dos bocais ou saídas de ar. O fluxo pode ser direcionado para onde desejarmos, podendo ser diretamente sobre nós ou para o ambiente. Também pode ser forçada, através do uso do ventilador em suas diversas velocidades. A maioria doa carros atuais tem uma alternativa de recircular o ar interno, o que significa que tanto o ventilador quanto o ar condicionado usarão apenas o ar interno para alterar a temperatura do ambiente. Isto promove uma troca de temperatura ou um desembaçamento mais rápidos, pois o ambiente é fechado. Não se recomenda usar este ar recirculado por muito tempo, e tão logo seja atingida a temperatura adequada devemos voltar a admitir ar externo. A função ar recirculado pode ser usada para restringir a entrada temporária de ar externo, como em caso de poeira ou fumaça, por exemplo. Mude novamente para ar externo assim que possível. Médicos recomendam que o ideal seja uma diferença entre a temperatura interna e externa de 5ºC, para evitar choque térmico.
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Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.