Economia & Negócios

Viver com mínimo exige planejamento

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Sobreviver com o salário mínimo é um esforço não apenas para se viver com as finanças apertadas, mas também para planejar a vida sabendo-se que o dinheiro é insuficiente. Desde ontem, o limite real passou de R$ 415,00 para R$ 465,00, com reajuste de 12,04%. Nos cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 45 milhões de brasileiros recebem salário mínimo, o que representa 23,9% da população do País. O salário mínimo equivale a cerca de US$ 200,00.

A estudante universitária Jéssica Juliana de Camargo, 17 anos, recebe R$ 415,00 mensais como vendedora em livraria especializada no segmento religioso, instalada no Calçadão da Batista de Carvalho. Ela diz que começou a trabalhar há cerca de um ano, no momento em que o salário mínimo passou a valer R$ 415,00.

Com o projeto definido de buscar uma carreira profissional, ela irá cursar a graduação em ciências biológicas em uma faculdade privada de Bauru. A mensalidade paga em janeiro foi de R$ 427,00, o que consumiu todo seu salário e ainda R$ 12,00 extras. Os R$ 50,00 a mais no mínimo vão garantir à universitária o pagamento integral da mensalidade. Porém, não será suficiente para outras despesas com livros e xerox, que pesam no custo da manutenção de um curso universitário.

Jéssica terá que recorrer ao “patrocínio” dos pais para não ficar no vermelho todos os meses. Na família de quatro pessoas, todos trabalham. Além de Jéssica, um irmão de 21 anos já está empregado. Jéssica é vaidosa, como toda a jovem de sua idade. Roupas e bijuterias têm que estar atualizadas e isso tem um custo.

Ela comenta que, logo que começou a trabalhar, o salário mínimo foi empregado para quitar uma dívida de compra de roupas e acessórios. Com isso, percebeu que o mínimo é insuficiente para uma pessoa. Para Jéssica, o reajuste de R$ 50,00 é pouco, mas não pode ser recusado.

O economista Reinaldo Cafeo avalia que o reajuste do mínimo em 12,04% é significativo devido à atual conjuntura econômica mundial. Ele ressalta que o momento atual é de preços em queda e entende que nenhuma categoria profissional irá conseguir, neste ano, reajuste salarial próximo do índice fixado para aumento do salário mínimo. “Há uma recuperação efetiva do salário mínimo”, situa Cafeo.

No entanto, ele ressalta que esse poder de compra é baixo e tende a diminuir, dependendo da quantidade de pessoas que dependam do salário. A cesta básica para quatro pessoas custa cerca de R$ 230,00, o que representa 50,53% do novo mínimo de R$ 465,00. Porém, o economista lembra que, geralmente, quem recebe salário mínimo no Brasil tem despesas com medicamentos, que têm preços elevados. “Sobrevive, não tem nenhum luxo, não tem nenhum tipo de lazer. É para sobreviver”, define.

Tendência do reajuste

Cafeo aposta que, para os próximos anos, os reajustes do mínimo serão menores devido a fatores macroeconômicos, como a queda no crescimento econômico do País. Atualmente, o reajuste do salário mínimo é definido por uma equação que leva em conta o crescimento da economia em anos anteriores, mais a inflação do ano anterior. Para Cafeo, o índice de 12,04% de reajuste no mínimo irá fazer o governo federal perder arrecadação neste ano, devido ao déficit da Previdência Social. Contudo, a compensação virá com menores índices de aumento do mínimo nos próximos anos.

Mínimo em São Paulo

Cafeo lembra que o mínimo não afetará trabalhadores na ativa no setor privado e nem os servidores estaduais de São Paulo, já que o Estado possui um mínimo regional fixado de R$ 450,00. No Estado, o impacto do aumento para R$ 465,00 afetará os ganhos de pensionistas e aposentados que recebem um salário mínimo. O governo federal ainda não divulgou em que base ficará o reajuste de pensionistas e aposentados que recebem mais que um salário. Por enquanto, a defasagem do mínimo regional para o salário mínimo fixado pelo governo federal é de R$ 15,00, o que equivale a 3,3%.

Cafeo avalia que, se o governo estadual mantiver a diferença entre o mínimo federal, o reajuste deverá elevar o salário mínimo regional de R$ 450,00 para aproximadamente R$ 500,00, simulando um reajuste de cerca de 8%.

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