São Paulo - Um caso à la “Jules e Jim”, o célebre filme de François Truffaut que mostra a paixão de dois amigos pela mesma mulher. Assim foi o início da relação entre o militante político, poeta e escritor Cesare Battisti e Pietro Mutti, o principal delator do extremista italiano. Em sua autobiografia “Minha Fuga Sem Fim”, publicada em 2007 pela Martins Fontes, Battisti conta detalhes de sua amizade com Mutti, a quem chama de “carrasco” e com quem teria dividido uma namorada.
No livro, lançado na França em 2006, Battisti expõe sua participação no grupo de esquerda Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), o exílio em Paris e a fuga para o Brasil, durante a qual teria usado disfarces. Em toda a narrativa, Battisti nega ter cometido os quatro assassinatos de que é acusado.
Sobre Mutti, sugere que a inimizade entre os dois nasceu por causa de uma mulher. “Passamos a partilhar as noitadas no bar, mas também, às vezes, a mesma cama e a mesma garota. O vinho abolia minhas reticências e a cama era suficientemente grande para três.” Mutti é o personagem-chave do “drama” de Battisti: “Esse homem, que foi meu companheiro e se tornou meu carrasco, esse homem cujo falso testemunho, prestado em minha ausência, custou-m
Os dois se conheceram nos anos 70, enquanto militavam na Itália. Battisti conta como foi parar no PAC e relata a sua decisão de abandonar a organização em 1978, quando ocorreu o primeiro assassinato do qual é acusado. “Naquele momento resolvi virar a página e renunciar definitivamente à luta armada.” Battisti abriu então uma garrafa de vinho branco e informou sua decisão a Mutti, que não a teria recebido bem.
Preso em 1979, o ex-militante relata a sua fuga para a França, atravessando os Alpes, em 1981. A passagem por Paris, onde conheceu a mãe de suas duas filhas, ganha a maior parte do livro. Em fevereiro de 2004, policiais o abordam no hall do prédio onde vivia, no 9 º Arrondissement parisiense.
Battisti é preso pela segunda vez. Era o governo de Jacques Chirac, colaborando com o pedido de extradição feito pelos italianos. Os policiais, conta Battisti, o deixaram esconder as algemas com o paletó e lhe deram tempo de salvar um texto no computador. Após um tempo na prisão, ele relata a noite em que recebeu a liberdade provisória: “Me deixei arrastar de festa em festa.” Fora da cadeia, percebeu que seria extraditado. “Já não aparecia nas páginas da Justiça, e sim no terrorismo, ao lado de Bin Laden.” Resolve fugir.
Começa aí outra parte do livro, a fuga para o Brasil, onde Battisti narra em terceira pessoa. O protagonista, Auguste, usa maquiagem pelos aeroportos da África e pega carona e barcos para chegar a seu destino, Fortaleza. Ao desembarcar aqui, com um comprimido de calmante embaixo da língua, ele passa por um dos momentos mais tensos do livro. “O fiscal mal olhou para o seu rosto, só abriu o passaporte e o passou diretamente pela máquina. Repetiu a operação várias vezes e com ar desolado disse: ‘O seu passaporte está sem código de barras ou então está com defeito.’ Seu coração disparou.” A primeira edição de “Minha Fuga Sem Fim” saiu com 2 mil exemplares. De acordo com o editor, Evandro Martins Fontes, houve maior interesse na obra de Battisti, que é autor de mais de dez romances policiais, com a concessão do refúgio.
Outros dois livros darão continuidade à autobiografia: “Ser Bambu” e “Pé no Muro”. Na cadeia, Battisti continua escrevendo. Manuscritos. Por medida de segurança, usa a carga de uma Bic.