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Jurandyr Bueno Filho


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Ninguém foi mais bauruense do que Jurandyr Bueno Filho. A cidade era o centro das suas preocupações, embora dela não precisasse. Era mais requisitado fora de Bauru. Ficou esquecido depois de ter dado uma cara nova à paisagem urbana da sua terra natal nos governos Alcides Franciscato, Edmundo Coube e Oswaldo Sbeghen. Inquieto com as soluções que tinha na cabeça para os problemas urbanísticos, a baixo custo, resolveu candidatarse à Câmara Municipal. Estava cansado de ser recebido como intrometido pelos governos que se seguiram a Sbeghen. Suas opiniões caíam no vazio. Acho que confundiam a sua vontade de servir com ambição política, coisa que jamais teve. Mas o povo bauruense soube valorizá-lo e o elegeu com expressiva votação. Vinha trabalhando de forma inteligente. Interagiu com os vereadores, sintonizou-se com o prefeito em benefício do interesse público. Tudo por Bauru. Menos tolerar safadezas como as que mancharam a nossa história recente. Seu sonho maior era fazer do Parque do Castelo o nosso Ibirapuera, no eixo da avenida Nações Unidas-Norte. Queria dar uma cara mais bonita ao Centro da cidade com a reurbanização e o paisagismo do pátio ferroviário, sem necessidade de mudar os trilhos. As antigas instalações da Noroeste iriam se transformar em equipamentos destinados à cultura, ao lazer e à diversão. Está em curso um projeto seu de mesma concepção em Lençóis Paulista, com o aproveitamento de uma siderúrgica abandonada.

Jurandyr não foi apenas o talentoso urbanista e arquiteto da avenida Nações Unidas, do cartão postal do Vitória Régia, da Universidade do Sagrado Coração, do prédio do Centrinho, do Terminal Rodoviário. Era uma notável figura humana. Solteiro, elegeu os filhos dos amigos e colaboradores como seus filhos e netos. Fazia questão de ser um “avô” permissivo. Levava as crianças a passear e até permitia que bagunçassem a sua casa. Fui beneficiário da sua amizade e espírito humanitário. Quando detido pela Polícia Federal, por ter ousado fazer críticas numa época ditatorial, ele foi o primeiro a se solidarizar comigo. O gesto poderia prejudicar sua carreira. Estávamos no olho do furacão. Logo eu que havia sido um crítico injusto de uma das suas primeiras obras, como secretário do Escritório Técnico da Prefeitura. Chamei a junção da avenida Rodrigues Alves com a avenida Pedro de Toledo, por ele projetada, de “nova curva da morte”. Nunca houve acidente naquele local. Tornamo-nos amigos essenciais. Até projetinho da reforma lá de casa ele fez questão de cuidar.

Depois de visitar a Índia com sua amiga Vera Holtz e se abeberar na filosofia de vida hindu, aprendeu que precisava ter um corpo são, para a mente ser também sã e a alma ganhar vigor. Bebia socialmente. Mesmo assim resolveu abster-se de álcool. Fez o mais fácil. Lutava contra o tabagismo sem conseguir livrar-se do vício que, talvez, tenha dado causa à degeneração das suas coronárias. Jurandyr foi amigo de muitas celebridades. Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha, dois dos maiores arquitetos do mundo, já tinham aceitado o seu convite de parceria para projetar o Museu do Pelé, em Bauru. Paulo o levou a Istambul como convidado de honra, quando recebeu o maior prêmio mundial de arquitetura. Nas suas viagens – sua foto virou selo de Correio na China – Jurandyr percebeu o quanto é importante a organização da sociedade. Em uma entrevista que me concedeu, disse que as localidades mais bem sucedidas do mundo, qualquer que seja o seu tamanho, têm uma história de organização do seu povo, sem discriminar qualquer grupamento. A isto os sociólogos chamam de “capital social”. Semeste “capital” não há como se produzir o milagre do desenvolvimento. Achou que era possível fazer a mesma coisa em Bauru, uma cidade sempre muito dividida, a partir da topografia. Ainda estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo, formou na equipe que elaborou o primeiro Plano Diretor da cidade. Bauru era seccionada pela malha ferroviária e pelo rio Bauru. Quem morava na cidade corria risco de vida se fosse namorar na Bela Vista ou na Vila Falcão. O então jovem arquiteto previu a construção de vários viadutos interligando as áreas urbanas, todos concretizados por Alcides Franciscato (Viaduto 13 de Maio), Edmundo Coube (avenida Duque de Caxias) e Oswaldo Sbeghen (Viaduto da Independência). Tidei tentou fazer a ligação sobre os trilhos, desde avenida Nuno de Assis à Vila Falcão.

Será difícil surgir alguém capaz de completar os sonhos do nosso maior arquiteto, desaparecido num momento de muita luz. Escreveu João Guimarães Rosa (1908-1967) que “A gente morre para mostrar que viveu”. E como viveu Jurandyr! Pessoas especiais, segundo o mesmo autor, na verdade não morrem. Ficam encantadas!

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista é colaborador do JC

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