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Sim, evolução comprovada!


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Como biólogo formado e mestrando em ecologia, nunca em minha vida cogitaria discorrer publicamente sobre um assunto que não domino. “No artigo Darwin – evolução comprovada?” publicado na coluna Opinião deste conceituado jornal, o autor, medico por formação, junta uma porção de falácias amparando-se na confiança e credibilidade que usualmente a população deposita nestes profissionais, para desferir críticas ao que ele chama de teoria controversa e cheia de lacunas, a teoria da evolução. O conflito entre ciência e religião é antigo, desde quando sugerir que a Terra era redonda era pretexto para ordenar que se queimasse vivo o blasfemo. Recentemente vê-se um conflito crescente entre representantes do pensamento criacionista e do pensamento evolucionista, muitas vezes biólogos como o próprio Richard Dawkins citado no referido texto. Uma corrente mais branda dentro da ciência, da qual fez parte o renomado paleontólogo Stephen J. Gould, e com a qual tenho opiniões em comum, considera a ciência e a religião ministérios não-interferentes, uma vez que a primeira utiliza-se do método científico e da lógica e razão para responder as questões que a ela competem e a religião baseia-se na fé. De qualquer forma muitos atacam o Darwinismo que ao contrário do que o autor sugere não é aderida cegamente por muitos cientistas, mas por todos que se comprometem de forma séria com a ciência, pois como versa a célebre frase de um dos maiores geneticistas da história T. Dobzhanski: “Nada faz sentido em biologia senão sob a luz da evolução”. Vou aqui selecionar alguns dos absurdos sem fundamentos, utilizados pelo autor como evidências contrárias ao Darwinismo, para ilustrar como é importante dominar o assunto sobre o qual se deseja discursar, nem falarei, portanto, sobre a teoria do Big Bang que foi proposta por físicos e não contraria as leis da física como foi paradoxalmente proposto pelo autor. A fossilização é um fenômeno que exige condições muito específicas de solo, composição dos materiais onde o organismo morto é depositado, temperatura, umidade, acidez, etc... Imaginemos como seria o mundo se todos os seres vivos que até hoje habitaram a Terra estivessem fossilizados para que pudéssemos estudar toda a história evolutiva, estaríamos vivendo sobre montanhas de organismos bem preservados e a ciclagem de matéria estaria interrompida há tempos. Portanto, não se esperam encontrar elos perdidos ou toda a sucessão de espécies que originou as atuais, os fósseis quando fortuitamente existem, de fato ajudam na compreensão da história da vida na Terra, mas a sua ausência não implica na inexistência do processo de mudança das espécies. Aliás o próprio conceito de espécie é tão discutido quanto a teoria da evolução em si. De forma simplificada consideram-se duas espécies diferentes quando essas são incapazes de gerar descendentes férteis ou acumulam diferenças morfológicas que impedem sua reprodução. É simples e exige pouco mais de alguns anos para que, selecionando variedades de plantas de uma mesma espécie, essas variedades tornem-se incapazes de reproduzir e dessa forma aquilo que nem mesmo Darwin viu, segundo o autor do texto, eu já vi em um laboratório durante minha graduação. Sobre as teorias de pangênese e abiogênese eu sugiro uma releitura, pois o autor definitivamente não está familiarizado com os termos. A evolução em si não é um conjunto de respostas erradas; a evolução cujo significado biológico é a mudança na freqüência dos genes ao longo de gerações sucessivas, é considerada um fato, bem como o processo de seleção natural. O que é tido como uma teoria e apoiada por um sem número de evidências na natureza é a teoria da evolução, que reúne diversos processos como a seleção natural e deriva genética para explicar a diversidade biológica atual. A importância de Darwin foi perceber esses fatos e elaborar uma versão bastante simplificada em relação à teoria atual, direcionando todos os estudos e pesquisas com seres vivos em todo o planeta desde sua obra mais conhecida: “A Origem das Espécies”. Escrevo esse texto sem nenhuma pretensão de atacar o autor do texto ou algum tipo de religião. Meu intuito é alertar para o uso indevido de termos como a evolução.

O autor, Mathias Mistretta Pires, é bauruense, biólogo e mestrando pela Universidade Estadual de Campinas, Unicamp

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