Política

Delfim: ousadia é antídoto à crise

Marco Brogna De O Liberal de Americana, especial para JC
| Tempo de leitura: 3 min

Nunca na história deste País, emprestando o termo do presidente Lula, se falou e se escreveu tanto a palavra “crise” como nos últimos meses. Crise nos Estados Unidos, crise na Europa, reflexos da crise na América Latina, crise global. Seria, pois, o fim do modelo capitalista ou quem sabe o colapso da civilização? Não. E quem garante isso é o professor, ex-ministro e ex-deputado federal Delfim Netto, que proferiu esta semana uma palestra para empresários sobre a crise, na sede da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e Sinditêxtil, em São Paulo.

Bem-humorado e disposto a desmistificar o que se tem noticiado sobre a tal crise, Delfim falou por mais de duas horas ancorado em muitos números e na experiência de ter sido o ministro nos tempos em que o Brasil crescia 10% ao ano. E expôs uma crise que, para ele, é uma fase natural do modelo capitalista, que vai passar, como todas as outras. Mais: crise que é dos EUA e já afetou o Brasil anos atrás, quando o governo FHC criou o Proer para salvar bancos com dinheiro público (o que os EUA estão fazendo).

Delfim desafiou a platéia a enfrentá-la. “O crescimento é um estado de espírito. Ele está escrito na cabeça de todos vocês”, cravou o professor, diante de donos de empresas. E foi além: disse que o presidente Lula percebeu isso logo de cara. “O Lula percebeu que era um momento de expectativa, só que ele não manda (na política financeira)”, afirmou, causando risos gerais.

A receita para vencer o desafio foi traduzida no verbo “ousar”. “Temos tudo para enfrentar a crise. Vamos pagar um preço menor do que os outros (países) emergentes, desde que tenhamos o mínimo de ousadia”, disse Delfim. Para explicar melhor essa condição “privilegiada” do Brasil, o ex-ministro se baseia em números. “Em 2002, estávamos falidinhos da silva. O País precisava de R$ 3,5 anos de exportação para pagar a sua dívida. Hoje, precisa de cinco meses”. Mas o que mudou tanto?

Delfim também explica, e se baseia na bonança global dos últimos anos, que ajudou o Brasil a voltar a crescer com maior estabilidade, reservas confortáveis de dólares, um pouco mais de distribuição de renda e vitória sobre a inflação. “O nosso navio estava no mar, o mar subiu e subimos juntos. Só que o Lula pensa que foi ele que elevou o nível do mar...”, disse, levantando novamente risos dos empresários. E emendou: “Temos 200 milhões de sujeitos, não temos problemas internos e temos o Pré-Sal (reserva de petróleo recém-descoberta pela Petrobras). Somos uma opção extraordinária”, definiu, utilizando um termo muito querido do presidente da República.

No momento das perguntas, um jornalista questiona o “otimismo” de Delfim, apontando os países se fechando com protecionismo, o que dificultaria as exportações brasileiras. Delfim respondeu também com bom humor. “Nós envelhecemos e você continua acreditando na imprensa”, cravou, tirando o terceiro coro de risos, até dos jornalistas dos grandes veículos paulistanos. “O efeito é na diferença entre importação e exportação”, complementou. E foi além: disse que, por pior que seja a crise, ela não conseguirá tirar os países emergentes do “novo centro de gravidade do mundo”.

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