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O castelo do mau gosto


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Na Roma antiga a corrupção era considerada inimiga da república. Naquela época, “corrupção” nada tinha a ver com desvios do dinheiro público, por um administrador desonesto. Estes eram sumariamente jogados no abismo e tinham confiscado todos os seus bens, e os da família. Corrupção se referia aos costumes. Bastava que o senador ou algum agente político tivesse uma vida privada ou familiar fora das regras para cair em desgraça. O corrupto de hoje impede que o dinheiro vá para a saúde, a educação, o transporte, e assim produz morte, ignorância, crimes em cascata. E fica impune. Mais que tudo: perturba o elo social básico que é a confiança um no outro. Sem essa confiança e sem um elo social, não há vida republicana. Deixa de prevalecer a coisa pública (res pública). Entramos num vale-tudo. As pessoas se trancam em casa com medo da violência.

Aqui, os nossos políticos ainda continuam com hábitos feudais. No meio político vive-se a prevalência do interesse individual sobre o coletivo. No jogo pelo poder a qualquer custo, a ética pouco vale; o empreguismo é o botim da vitória; e a traição apenas um pecado venial. Mas ainda não se sabia de um deputado dono de um castelo avaliado em cerca de R$ 25 milhões e construído em plena Zona da Mata mineira. Cada um tem o direito de vazão as suas megalomanias. Segundo Toquinho, numa folha qualquer ele desenha um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo. Alguns de areia, outros de cartas. Aqui mesmo em Pederneiras temos um castelo. O que não fica bem é construí-lo com o dinheiro desviado do Inss, do Imposto de Renda e sonegado dos seus empregados. O neo-castelão Edmar Moreira responde a processo por estelionato no STF, por ter foro privilegiado como deputado. Chegou a ser eleito corregedor da Câmara Federal, responsável por encaminhar processos de cassação contra deputados com desvios éticos. O escândalo repercutiu na imprensa e o parlamentar foi “desligado” do seu partido (DEM). Foi substituído, como corregedor, por Antonio Carlos Magalhães Neto, que também não está disposto a corrigir absolutamente nada. Os 513 deputados têm R$ 12 mil mensais, a chamada verba indenizatória, para gastar com alimentação, gasolina e segurança mediante apresentação de notas fiscais para direito a reembolso. É evidente que as notas são fajutas. O próprio Edmar Moreira pagou 140 mil em 2008 para contratar a sua própria empresa de segurança. Esta troca de Moreira por ACM Neto lembra a hipótese da “rainha vermelha”, personagem de Lewis Carrol que diz a Alice: “Neste país temos que correr a toda velocidade para permanecer no mesmo lugar”.

O Castelo Monalisa, o colosso erguido por Moreira, tem 36 suítes, oito torres, piscina com cascata e uma adega com capacidade para 8 mil garrafas. Nem mesmo o castelo de Cinderela, na Disneylândia, mantém tamanha imponência. E se for levado em conta o espírito corporativista que impera no Congresso, não há bruxa má que possa ameaçar o reinado de Dom Edmar. Até o novo líder do PT e aliado do ex-ministro José Dirceu, Cândido Vaccarezza (eleito pelo nosso Estado, teve 830 votos em Bauru), ainda tentou defendê-lo.

O caso Edmar Moreira é apenas um detalhe na eleição de José Sarney e Michel Temer para as presidências do Senado e da Câmara Federal, respectivamente. O PMDB passou a dominar as duas Casas do Congresso Nacional, com o apoio do presidente Lula. O principal articulador de Sarney foi Renan Calheiros (PMDB-AL), aquele mesmo que pagava a pensão da mãe da sua filha nascida fora do casamento, com a propina do lobista. Renan foi obrigado a renunciar à presidência do Senado, em 2007, por uso indevido da máquina pública e corrupção. Retomou agora o papel de protagonista da Casa, com a missão de negociar e dividir os cargos com os que apoiaram a eleição de Sarney.

O Congresso Nacional, por conta dessas benesses, tornou-se o segundo mais caro do mundo. Seu orçamento anual é de R$ 6,1 milhões, superior a de muitos Estados. Para cada um de nós, brasileiros, o Senado custa R$ 32,62/ano, segundo a organização independente Transparência Brasil. É um desembolso maior do que fazem os canadenses, norte-americanos, alemães e ingleses. É justamente neste ambiente que vão emergir as alianças políticas que definirão o quadro sucessório das eleições presidenciais e parlamentares de 2010.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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