Quando olhada de cima, Bauru fica ainda mais sem limites. Seus contornos se perdem no horizonte e ficamos sem condições de saber onde ela começa e onde acaba. Avistar a cidade de cima é uma experiência quase indescritível, posso garantir. Semana passada tive a oportunidade de passar por essa experiência que durou 20 minutos - menos do que eu gostaria, mas o suficiente para me deixar encantado.
Há anos, o Aeroclube de Bauru oferece o passeio ao público. Por R$ 100,00, a pessoa tem condições de sobrevoar a cidade e avistar, de um ângulo diferente, as cenas que compõem a realidade urbana. O tempo de duração do vôo costuma variar.
Nos dias quentes e secos, quando o céu fica repleto de térmicas (correntes de ar quente que ajudam a impulsionar as aeronaves para cima), é possível permanecer no alto por mais de meia hora - na verdade, quando as condições são favoráveis, pilotos experientes conseguem realizar vôos com horas de duração; no caso dos passeios voltados ao público em geral, a direção do Aeroclube limitou o tempo de duração em 45 minutos, no máximo.
Quando não há muitas térmicas no ar, o passeio costuma ser mais curto, cerca de 15 minutos. Pode até parecer pouco, mas são minutos tão intensos que dificilmente a pessoa ficará decepcionada depois que a aeronave aterrizar.
Meu vôo ocorreu numa quinta-feira, três dias depois de meu aniversário - significa que acabei ganhando um presente, mesmo que por tabela. O dia estava quente e ensolarado, embora algumas nuvens escuras no céu ameaçassem minha decolagem.
Eram por volta das 16h quando cheguei ao Aeroclube. Para alcançar o local da decolagem, tivemos de ir em um carro. Algumas pessoas já estavam ali me esperando, enquanto outras apenas aguardavam sua vez de levantar vôo.
“Você já havia voado de planador alguma vez na vida?”, perguntou-me um rapaz. Não, só de avião normal. Era a primeira vez, que eu ia flutuar no céu ao sabor dos ventos. “É perigoso?”, perguntei. Responderam que não, e fiquei em silêncio, pensando, apenas...
Para quem não sabe, não sou muito amigo das grandes altitudes. Na verdade, sou daqueles que acham que se o ser humano fosse feito para voar, teria nascido com penas e asas grudadas nas costas.
Até hoje não conheci ninguém que tivesse no corpo tais estruturas - e como eu próprio não as possuo, venho preferindo me manter sempre o mais próximo possível do chão. Isso evita que minha pernas tremam, que minha pressão caia, que minha boca fique seca e que meu coração dispare.
Há momentos na vida, porém, em que precisamos deixar o medo de lado, senão jamais teremos a chance de conhecer certas coisas fantásticas que existem nesse mundo. Decidi que iria voar de planador, ainda que fosse para desmaiar quando estivesse lá em cima (e caso isso ocorresse, ficaríamos sem matéria para colocar no jornal, a não ser que eu concentrasse a narrativa nos instantes que tivessem sucedido meu hipotético ataque).
Mas não tive ataque, nem senti tanto medo. Antes de o vôo começar, foram tomadas várias medidas de segurança, entre elas, a colocação de um pára-quedas balístico, que se aciona automaticamente em caso de algum acidente.
Quem me acompanhou no passeio foi Bruno Serraipa, 21 anos de idade. Embora tenha relativamente poucos anos de vida, é bastante experiente no vôo a vela. Começou no mundo dos planadores quando tinha 15 anos e hoje já pilota monomotores.
“Seremos levados por aquele aeroboero (nome do avião que reboca planadores) até uma altitude de 500 metros. Depois disso, soltarei o cabo que conecta nossa aeronave ao rebocador e iremos usar as térmicas para nos mantermos no ar”, explicou-me Bruno. Antes de subir, porém, tivemos de checar todos os equipamentos do planador.
Cintos de segurança travados, controles funcionando, tudo ok para levantarmos vôo. “Faça sinal de positivo para que possamos começar”, disse Bruno. As hélices do aeroboero começaram a girar com mais e mais rapidez; o cabo que rebocava nosso planador se esticou e começamos e nos mover; benzi-me o máximo de vezes possível. Tive uma estranha sensação de leveza e olhei para fora da aeronave. Já não estávamos mais tocando o solo. “Deus me proteja!”
A pista foi ficando cada vez menor, e os edifícios da zona sul iam perdendo a imponência que lhes é característica. Parecia tudo um jogo de Playmobil (linha de brinquedos que consiste em pequenos bonecos com partes móveis e uma série de objetos vendida mundialmente. “Quantas piscinas!”, exclamei, ao olhar para os quintais das residências localizadas nas imediações do Aeroclube.
“Sabe que isso é uma coisa que sempre me chama a atenção, quando estou voando por aqui. Parece até que todo mundo em Bauru tem piscina em casa - menos eu”, brincou Bruno.
O planador - um Puchacz de fabricação polonesa - foi subindo, até que chegamos ao limite de 500 metros. “Prepare-se, vamos nos desconectar do aeroboero”, disse o piloto. E soltou o cabo. O planador fez uma curva de quase 360 graus, e tentei manter minha vista fixa em um ponto no horizonte (isso evita enjôos e mal-estar).
Só que meu pescoço estava travado, minha cabeça meio pendida para a direita. “Pode se endireitar e aproveitar a viagem”, recomendou o piloto. Olhei adiante: dava para ver cidades vizinhas - Lençóis Paulista, Agudos, Piratininga - em detalhes. “Ficam parecendo um ovinho, não é?”, comentou Bruno.
Pareciam mesmo. Tudo pequeno, quanta vida lá embaixo. Do alto, o mundo ganha uma dimensão nova. Passamos a ver como o universo vai bem além daquilo que está ao alcance de nossa vida. Pena que foram só 20 minutos. Mas que minutos! Quando ele alinhou o planador para que iniciássemos a aterrizagem, fiquei um pouco chateado. Deu vontade de dizer: “Mas já?”
Só que não disse nada. Ao final do passeio, as pessoas que estavam no solo dando suporte ao nosso vôo perguntaram-me o que eu havia achado da experiência. “Muito boa”, respondi sorrindo. Minhas pernas estavam meio bambas e, embora eu tentasse disfarçar, tremia feito vara verde. Algum dia ainda supero esse meu medo de altura. Mas que voar de planador foi bom, isso não dá para negar.