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Dobram os sinos


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José Saramago participou de várias edições do Fórum Social Mundial (FSM). Numa das vezes em que fora convidado, não podendo comparecer, enviou uma bela mensagem lida no encerramento do fórum ao som de gongo e de música indígena numa concha marinha. Tratava-se de uma referência a uma narrativa medieval sobre os sinos de uma aldeia que soavam a finados porque a democracia estava em luto. Dia 7 de fevereiro último, os sinos das igrejas de Olinda e Recife também dobraram às 06, às 12 e 18 horas, não a finados, mas para festejar o centenário de nascimento de Dom Hélder Câmara.

Menino pobre de uma família de treze filhos dos quais apenas oito sobreviveram, ordenou-se padre aos 23 anos de idade. Conheci-o ainda jovem sacerdote no Rio de Janeiro, carregando tábuas para a reconstrução de casas destruídas por torrenciais chuvas. Para solucionar os problemas habitacionais dos favelados, criou em 1956, a Cruzada São Sebastião (padroeiro do Rio de Janeiro). Em 1959, criou o Banco da Providência tendo como braço direito Dona Maria do Carmo Neves, organizadora dos primeiros encontros da Pastoral da Mulher Marginalizada.

Nomeado bispo em 1952, logo consegue a aprovação da constituição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), precursora das Conferências Episcopais criadas pelo Concílio Vaticano II. Em 1955 consegue autorização para fundar o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) do qual foi vice-presidente.

E, 1964, é nomeado Arcebispo de São Luís do Maranhão e logo transferido para Recife. Notória foi sua atuação no Concílio Vaticano II. Pouco antes do encerramento, no dia 16 de novembro de 1965, com outros 40 padres, celebra a Missa nas catacumbas de Domitila e, com eles, firma o pacto por uma igreja “servidora e pobre” incentivada pelo Papa João XXIII. O texto do pacto serviu como base para a Teologia da Libertação. No terceiro item afirma: “Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso nome: e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas.” No nono item, declaram ainda: “...procuraremos transformar as obras de `beneficência´ em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, ...”

Durante a ditadura militar, foi perseguido e caluniado, tendo sua casa atingida por vários tiros e seu telefone permanentemente grampeado. Cajá, um de seus assessores foi preso e torturado. Fizemos então uma visita em solidariedade em sua residência na Igreja das Fronteiras, agendada por telefone (que ele mesmo atendeu). Recebeu-nos com os braços abertos, um sorriso largo, os olhos sempre lacrimejantes. Ao apontar as marcas de tiros nas paredes, ele respondeu que nada temia e que, ao telefone, procurava evangelizar quem estava de plantão na escuta, além disso, sentia-se seguro porque era ouvido com sua própria voz, sem distorções com as quais tantas vezes fora caluniado. Indicado quatro vezes para o prêmio Nobel da Paz, por pressões dos governos ditatoriais, nunca chegou a recebê-lo, mas o município de Oslo (Noruega) outorgou um prêmio com igual valor. Nos momentos mais difíceis não esmoreceu dizendo “quanto mais escura é a noite, mais carrega em si a madrugada.”

Várias universidades concederam-lhe o título de doutor “Honoris Causa”. Em 1983, o Japão lhe concedeu o Prêmio Niwano para a Paz. Pastor e pai dos pobres foi o título que mais o honrou. Também no Fórum social Mundial, foi homenajeado. Sobram razões para que os sinos de Olinda e Recife dobrem festivamente.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulheres de Lins e professora aposentada da Unesp

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