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Quem não sabe o que é o mundo não sabe onde está


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Antigamente, bastava saber que estávamos sobre um pedaço de terra, que o Sol se levantava e depois se deitava; que a chuva tinha hora para cair e que o alimento crescia naquele pedaço de terra. O mundo girava ao redor de poucos alqueires, de poucas luas e isso bastava. Hoje, isso não nos basta. Onde estamos? Meus pés já não pisam a terra... debaixo deles há um tapete, sobre uma laje, sobre uma viga, sobre uma fundação enfiada na terra. Ah! a Terra... a bola que habitamos no espaço: uma dentre outras esferas girando ao redor do Sol. Foi-se o tempo em que nosso ego se inflava por pensarmos ser o umbigo do mundo. Mas a natureza da natureza é curiosa. Se o Sol sumisse do céu só saberíamos disso oito minutos depois! Sequer nos foi dado o privilégio de estar no centro de nossa galáxia, estamos na periferia, num dos braços. É daqui que escrevo! A Via Láctea é uma dentre infindáveis outras galáxias. O Universo é tão vasto... até onde alcança meu pensamento?

Especula-se que este Universo seja apenas um dentre outros. A que lugar nos leva um buraco negro? Talvez a outro Universo... mas pode não ser assim! Não sabemos quantas galáxias existem, apenas sabemos que se afastam... se afastam... será que estamos sós? Talvez o Universo se expanda até resfriar e morrer. Estudiosos defendem a idéia de que esta expansão teve início com data marcada, em que toda matéria de todas as galáxias, representada quase exclusivamente pelo hidrogênio, estaria reunida num espaço ínfimo, menor que a cabeça de um alfinete. Depois uma grande explosão. Ainda somos capazes de ouvir seu eco! A matéria primordial formou nuvens que gerou estrelas. A matéria excedente das estrelas, nessa dança universal, teria formado o sistema solar há 4,6 bilhões de anos e a nossa Terra ganhou sua crosta por volta de 3 bilhões de anos passados.

Depois, as águas se precipitaram sobre a superfície e, por volta de um bilhão de anos atrás, surgiram as algas azuis, uma das primeiras formas de vida. O Universo e a vida aqui na Terra, plantas, peixes e anfíbios, evoluíram segundo uma receita precisamente elaborada. Quem a prescreveu com tanto cuidado? Há aproximadamente 350 milhões de anos surgiram os primeiros répteis que, depois de terem habitado a Terra por milhões de anos, acabaram desaparecendo. Animais adequados para uma Terra inóspita ou será que seu destino nos serve de aviso e de exemplo? Se maltratarmos este planeta, destinado a nossa evolução, uma pedra pode cair na nossa cabeça! Por volta de 70 milhões de anos expandiram-se os mamíferos e, depois, surgiram os primeiros primatas. Puxa! Passaram-se mais de 11 bilhões de anos para que surgisse algum parente, mas muitas de suas ramificações não conseguiram vencer na luta pela sobrevivência. O nosso parente mais próximo é um “jovenzinho” de 500 mil anos. Somos recém chegados. Quanto tempo será que dura o meu pensamento?

Mas por que o homem pensou? Pouco se sabe... O que se especula é que o homem, assim como os outros animais, deveria estar até o pescoço na luta pela sobrevivência, reunido em bandos para a caça e a pesca. Mas, num dado momento, as circunstâncias e a compleição desse animal homem teria se combinado de tal modo que ele se diferenciou dos demais. Como? Talvez nunca saibamos. Podemos imaginar que isto estivesse prescrito naquela receita para acontecer exatamente naquele instante. Quem a prescreveu com tanto cuidado? No novo momento de sua existência, temendo os trovões, os raios e a morte, esse mesmo homem levou sacrifícios às forças desconhecidas da natureza. Ajoelhou, rezou. Mas, foi num outro instante, depois de pensar, depois de referenciar a natureza e de se curvar diante dos deuses que ele mesmo criara, perguntou-se: mas por quê? Por que a natureza? Por que o mundo? O que são estas estrelas? O que são as galáxias? O que são os planetas? O que são o céu e estas águas? O que é isto tudo?

Nesse instante, o homem filosofou e filosofou porque pensou sobre aquilo que já havia pensado. Pensou em segundo grau! A filosofia é a busca pelo saber, então, a pátria dos filósofos é a sabedoria e é de lá que ecoam vozes pela integração dos povos, sem que se percam suas particularidades. É de lá que se clama que cada um conheça a si mesmo para abraçar a humanidade inteira. Hoje, depois de milhares de anos, os homens ainda se perguntam: O que é a Terra? Em um Universo tão violento e inóspito, por que a Terra nos é tão hospitaleira? O que é o pensamento? Afinal, o que sou eu? O que somos nós e essa gente toda? E o que fazemos aqui, em cima desse tapete?

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp-Bauru

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