Regional

Crise de identidade favorece tragédias

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

Historicamente, a família sempre foi o instrumento central de identidade para os indivíduos. Mas, na sociedade contemporânea, essa referência migrou para um ponto ainda desconhecido, situação que favorece as tragédias familiares. A síntese, que poderia ajudar a explicar o caso de Bocaina, foi extraída das palavras do antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

De acordo com ele, a família está perdendo a importância para a localização do indivíduo na sociedade. Para explicar sua interpretação, ele recorre ao conceito sociológico denominado como anomia. Trata-se de um estado de falta de objetivos e perda de identidade provocados pelas intensas transformações do mundo moderno. A partir do surgimento do capitalismo e da tomada da razão como forma de explicar o mundo, há um brusco rompimento com valores tradicionais, fortemente ligados à concepção religiosa.

Em contrapartida, essa mesma modernidade, com seus intensos processos de mudança, não fornece novos valores que preencham os anteriores demolidos, ocasionando uma espécie de vazio de significado no cotidiano de muitos indivíduos. “A anomia sempre causa uma ambigüidade no indivíduo. É um processo coletivo dessa perda da função da família na sociedade contemporânea. A função não é mais clara. Então, quando tem a angústia, a tendência é destruir a família”, explica o antropólogo.

Já na opinião de Maria Lúcia Biem, terapeuta sexual, de casais e de família, a freqüência com que tragédias em núcleos familiares são divulgadas pode ser explicada por um conjunto de fatores. Dentre eles, o próprio advento da mídia, que divulga ocorrências antes menos repercutidas. Ela ainda inclui questões sociais e econômicas, além da história de cada indivíduo, que pode ter problemas de natureza patológica.

“As pessoas precisam saber melhor com quem se relacionam. Existe uma ansiedade muito grande de ter alguém, sem ponderação. Precisa ter maturidade para saber quem está colocando dentro de seu ambiente familiar”, explica Biem. Na opinião dela, o modo como as crianças são tratadas nestes casos mostra também a banalização da vida. A terapeuta, no entanto, pondera que a agressividade humana é histórica e remonta a idos anteriores ao de Cristo.

Porém, um agravante é que as famílias atuais estão mais desestruturadas. “As pessoas já se casam pensando que se não der certo, separam. Os laços não estão tão fortes. É necessário o resgate familiar”, diz Biem. Para ela, as pessoas estão mais individualistas, egoístas. “A falta de valores leva a pessoas a cometerem atos incosequentes. Quando acreditam em algo maior, pensam antes. Querem matar porque não têm estrutura para trabalhar com a perda. Usam crianças como vingança. Se não respeitam nem elas mesmas, como vão respeitar o próximo?”, questiona.

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