Enquanto muitos calouros fazem pedágios em semáforos e outros são submetidos a situações vexatórias e até a violência por veteranos, 49 estudantes novatos da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) dão exemplo de que o tão tradicional trote, além de comemoração pelo ingresso na universidade, também pode ajudar os outros. Ontem, logo cedo, eles pegaram em pincéis e tintas e pintaram a Emei Lions Club de Bauru, localizada na Vila Quaggio.
“Bicho” do curso de odontologia, Rafael Ferreira, 19 anos, não está apenas entrando num universo novo – a universidade – como também chegou a uma nova cidade. Natural de Mineiros do Tietê, ele conta que temia pela recepção dos veteranos do curso. Com tantas novidades, Ferreira ficou aliviado ao saber que iria participar do trote solidário.
Beatriz Martines de Souza, colega de Ferreira, também não se incomodou em atuar como pintora de paredes. “É mais fácil pintar as paredes do que passar no vestibular”, brincou ao se referir à tarefa. A assistente social da USP, Cristine Habib, explicou que o projeto “Pintando Felicidade” é realizado na FOB há dois anos.
A iniciativa atendeu uma expectativa antiga da escola, cujas paredes ainda não haviam recebido tinta desde a última reforma. “A comunidade, os pais, professores agradecem o que nos estão proporcionando. As crianças ficarão empolgadas”, conclui a diretora Silvana Aparecida Augustinho do Nascimento.
A preocupação de Ferreira, como tantos outros calouros que chegam a Bauru todos anos, é enfrentar trote humilhante e até sair ferido das brincadeiras dos veteranos. Apesar do trote ser tradicional, casos de violência nas brincadeiras, que já chegou a provocar mortes, levou o assunto para discussão na Câmara Federal, que debate se a prática tem ou não de ser criminalizada.
Em Bauru, trotes violentos e solidários ocorrem desde a década de 80. Com o título “Trote desumano na FEB chega a provocar revolta”, o Jornal da Cidade do dia 29 de janeiro de 1980 noticiava que calouros da então Faculdade de Engenharia de Bauru foram obrigados, pelos veterenos, a ficar agachados na grama, seminus.
Um deles, que tentou fugir, foi ainda mais humilhado: foi obrigado a rastejar na grama, recebeu ovos na cara, ficou agressivo e chorou.
Em carta endereçada ao JC, o professor aposentado e ex-vereador Rodolpho Pereira Lima relembra que, em oposição ao ato grotesco, a solidariedade criativa, assim como hoje, marcou a recepção em 1980 dos “bichos” do curso de direito da Instituição Toledo de Ensino (ITE). O trote organizado pelo Diretório 9 de Julho uniu calouros e veteranos para um churrasco. Em retribuição às boas-vindas, os “bichos” fizeram uma doação em dinheiro à uma entidade social de Bauru, numa ação de solidariedade.