Bernardo José Guerra, meu avô materno, ainda muito jovem desentendeu-se com seu pai. Saiu de casa, na cidade de Alcobaça, no Sul litorâneo da Bahia, e embarcou como tripulante num navio da marinha mercante brasileira. Era o período da primeira guerra mundial (1914-1919). Várias vezes, o navio correu o risco de ser afundado pelos alemães. Conheceu diversos países: Portugal, Itália, Espanha, França, Inglaterra, etc. Havia, em plena guerra mundial, uma escassez de alimentos a bordo.
Meu avô tinha saudade dos peixes pescados e comidos em sua terra natal. Resolveu ser criativo. Pegou uma corda bem grossa, amarrou-a num dos mastros do navio. Na outra ponta da corda colocou um anzol grande, do tipo arpão. Pegou um tamanco, um calçado cuja base é de madeira e não de sola, muito utilizado popularmente na época. Assim como hoje usamos as havaianas de borracha. Fez um furo no tamanco, passando nele o anzol. A cor da madeira do tamanco, alvo-argêntea, assemelhava-se a um peixe com escamas.
Meu avô lançou a corda ao mar. O tamanco balançava ao sabor das ondas. O que dava a impressão de algo vivo entre as ondas. De repente, surgiu um tubarão. Ao ver o tamanco, ele achou que fosse outro peixe. O tubarão abocanhou vorazmente o pseudo peixe. Sua mandíbula foi atravessada impiedosamente pelo anzol-arpão. Ele tentou inutilmente se livrar do anzol. Ficou se batendo ferozmente até que, minutos após, rendeu-se pelo cansaço. Naquele dia todos saborearam a carne do tubarão, preparada por meu avô, excelente cozinheiro.
Gilberto Sidney Vieira - professor