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Dever de informar


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Há uma indignação muito justa em relação ao alto nível dos “spreads” bancários no Brasil. Os banqueiros reconhecem que eles são os mais elevados do mundo e o governo os aceita como tal (até mesmo os pratica nas operações de crédito de seus bancos oficiais) e, o pior de tudo: os “spreads” continuaram subindo aqui apesar do rápido socorro que o setor recebeu do governo desde setembro do ano passado. Por esses motivos não são convincentes as reações de “espanto” das lideranças do setor bancário diante das críticas dos empresários, particularmente da indústria paulista.

O fato é que ninguém agüenta mais esse nível de “spread”. No mínimo, a sociedade precisa saber porque ele é deste tamanho, porque os “spreads” dos países parecidos com o Brasil são 10% do “spread” brasileiro. Ela tem o direito de saber e o governo tem o dever de informar: qual o problema teratológico que exige do bom cidadão que ele se submeta a esse nível de desconfiança?

Emoções a parte, esta é uma questão que temos de resolver objetivamente. É preciso analisar a composição desses “spreads”, compará-la com a dos demais países, ver que uma boa parte disso é decorrente da própria política econômica que cada um pratica e calcular adequadamente o peso da tributação no custo final. E examinar cuidadosamente os cálculos que apontam um eventual crescimento da inadimplência.

Para se chegar a algum resultado, o governo precisa acionar rapidamente os mecanismos que atuam nas áreas de tributação e de regulação do sistema bancário. É urgente porque os brasileiros já não escondem a indignação diante dessa manipulação inaceitável que os faz pagar as maiores taxas de juro do mundo. Se for o caso, que se contratem auditorias independentes para ajudar a concluir mais rapidamente o levantamento de dados. Não há justificativa para que continue aumentando o custo do crédito para os brasileiros por conta de uma crise que produziu problemas nos países líderes das finanças mundiais, mas que na realidade, até agora, não existem entre nós. A última crise bancária que se manifestou no Brasil foi resolvida de forma bastante razoável: hoje o sistema é hígido, disciplinado e é bem controlado pelo Banco Central que faz um trabalho de regulação bastante competente.

Como em todos os mercados financeiros do mundo, hoje, o funcionamento de nosso sistema bancário sofre as conseqüências da quebra de confiança que interrompeu o circuito dos negócios nas chamadas “economias centrais”. Isso explicou, a partir de setembro passado, a retração geral do crédito que importamos meio açodadamente, mas agora que já se tornaram muito claras as diferenças a nosso favor (principalmente a reação altamente positiva dos setores produtivos diante das dificuldades), cessam os motivos para os bancos continuarem jogando na retranca. Tenho procurado mostrar que esta é a pior das atitudes, porque se o banqueiro insiste em reduzir os montantes, tenta elevar o custo dos empréstimos ou recusa o crédito a quem produz, ele que era um banco hígido acaba virando um banco podre, porque apodrece a qualidade de seus clientes.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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