Economia & Negócios

Indústria não ‘bota fé’ no gás natural

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

A tubulação para entregar gás natural às indústrias de Bauru já está quase finalizada, mas o setor ainda não sabe se compensa trocar o Gás Liqüefeito de Petróleo (GLP) pela nova fonte de energia para mover as máquinas. Por enquanto, o único consenso entre o empresariado é de incerteza quanto à viabilidade e custo-benefício do gás natural, que tem o benefício de poluir menos. Para piorar, apesar de boa parte dos dutos estarem prontos, o gás natural deve chegar à cidade, primeiramente, por carretas, sendo necessária a descompressão.

Isso porque ainda falta construir o city gate em Iacanga, sistema que permite a canalização do gás natural da tubulação principal para o ramal que chega a Bauru. Porém, em Marília (a 100 quilômetros de Bauru, as indústrias passarão a contar com o gás natural canalizado já no próximo mês. Em Bauru, a previsão da Gas Brasiliano Distribuidora, detentora da concessão do serviço na região Noroeste do Estado de São Paulo, é entregar o produto através de caminhões, em abril.

O JC apurou que as indústrias de Bauru temem adaptar equipamentos para funcionarem com gás natural e ocorrer uma disparada no preço do produto. Outra preocupação é que, em determinado momento, o gás natural, importado da Bolívia, não seja suficiente para atender toda a demanda. Há, ainda, questionamento do custo-benefício, ou seja, se no final do mês ficará ou não mais barato utilizar gás natural e não mais GLP nas máquinas.

Inicialmente, a programação da Gas Brasiliano era distribuir gás natural em Bauru, através de carretas, em janeiro de 2007. Posteriormente, a empresa passou a construir a tubulação e previa entregar gás natural em Bauru encanado a partir de junho de 2008. Agora, um atraso na construção do city gate, em Iacanga, adia a data outra vez. A nova previsão da Gas Brasiliano é que o gás natural encanado chegue a Bauru só em dezembro.

Domingos Malandrino, diretor regional do Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp) em Bauru, critica a demora e o fato de Marília já estar em vias de receber o gás natural quando a projeção seria apenas para 2010. “Em Bauru, não chegou gás por tubulação. Eles (Gas Brasiliano) estão atrasados com gás para chegar aqui”, estranha. Malandrino lembra que o gás natural deveria ser distribuído em Bauru até dezembro de 2007, conforme definido em audiência pública.

Cautela

Representantes de duas indústrias de baterias de Bauru ouvidas pelo JC elencaram como desvantagem do gás natural a indefinição do preço do metro cúbico. Segundo as empresas, a incerteza do abastecimento de toda a demanda por dutos é outro fator que pesa contra a mudança de matriz energética e o custo-benefício. Uma das empresas já tem o duto na porta. Porém, trata com cautela qualquer iniciativa, a curto prazo, de troca do GLP pelo gás natural.

O setor de marketing de Frigorífico Mondelli, outra empresa que poderia utilizar o gás natural, mencionou interesse no produto para substituir a lenha que, atualmente, abastece as caldeiras da empresa. No entanto, não há previsão para a empresa contratar o serviço. A Gas Brasiliano não informa os nomes, mas adianta que duas indústrias da cidade passarão a receber gás natural por caminhões - gás comprimido - a partir de março.

Todas as fontes consultadas evitam falar do valor do metro cúbico do gás natural. O motivo para tanta indefinição é o impasse na importação ocorrido, no ano passado, entre os governos boliviano e brasileiro, que acabou elevando o preço do produto.

De acordo com a assessoria de imprensa da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), o custo do metro cúbico do gás natural varia conforme a faixa de consumo do cliente. Para a Gas Brasiliano, o gás natural ainda é mais viável do que o GNP. Porém, Malandrino lembra é preciso uma maior quantidade de gás natural para atingir a mesma quantidade de calor proporcionada pelo GLP. “O preço precisa ser muito melhor do que o GLP”, afirma o diretor regional do Ciesp Bauru.

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Compressão

A rede de distribuição do gás natural em Bauru foi projetada para ter 59 quilômetros, com 12 quilômetros de dutos já implantados interligando os distritos industriais 1 e 2 de Bauru, além de uma extensão da rede no distrito 1 em direção ao Jardim Contorno. O traçado inicial privilegia o fornecimento a indústrias que têm maior demanda.

Enquanto o city gate não fica pronto, a Gas Brasiliano vai entregar o gás natural através de caminhões. A compressão do produto será feita na base da empresa em Araraquara, transportado via carreta e descomprimido na base da Gas Brasiliano em Bauru. A empresa garante que o transporte rodoviário não vai alterar o preço do produto.

Atualmente, carretas já abastecem dois postos de combustíveis que comercializam Gás Natural Veicular (GNV) em Bauru. Futuramente, a Gas Brasiliano pretende ampliar o leque de clientes distribuindo a hotéis, restaurantes, condomínios, prédios e shoppings.

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Atraso

Dezembro é o novo prazo para que o city gate em Iacanga seja concluído. A assessoria de imprensa da Gas Brasiliano explica que a TBG, empresa responsável pela construção, teve problemas na licitação. Nova licitação foi aberta e, como é necessário obedecer novos prazos, o processo todo atrasou. A nota da assessoria de imprensa da Gas Brasiliano ainda cita que o licenciamento ambiental contribuiu para o atraso na obtenção das autorizações necessárias ao início da obra.

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