As indulgências permitem ao fiel alcançar perdão total ou parcial para as penas relativas ao pecado que cometeu. No primeiro caso, elas são denominadas de plenárias, ao passo que as últimas, como não poderia deixar de ser, levam o nome de parcial.
“Quando nos confessamos, automaticamente nossa culpa é perdoada, mas permanece a pena relativa ao pecado. A indulgência serve justamente para nos redimir dessa pena”, explica o padre Gustavo Crepaldi, da Paróquia Nossa Senhora da Assunção, no Jardim Ouro Verde.
Para se ter idéia do que isso significa, é possível recorrer a um exemplo tirado do “Segundo Livro de Samuel”, do Antigo Testamento. O capítulo 12 narra o episódio em que o rei Davi seduziu Bete-Seba, esposa do soldado Urias. Era tempo de guerra, e Urias se encontrava no campo de batalha. Davi, que permanecera no palácio real, em Jerusalém, avistou Bete-Seba enquanto ela se banhava e acabou se apaixonando.
Bete-Seba engravidou e, tempos depois, Urias retornou da guerra. Para tentar encobrir o adultério, o rei passou a ordenar ao soldado que deixasse o acampamento e fosse dormir com a esposa.
O guerreiro, porém, preferia se manter fiel aos companheiros e não arredava o pé da porta do palácio. O texto bíblico afirma que, para resolver o problema, Davi determinou ao general Joabe que mandasse Urias para a frente mais perigosa da batalha, onde estivessem concentrados os adversários mais fortes.
Urias morreu e Davi ficou livre para tomar Bete-Seba por esposa. Só que o pecado do rei não agradou a Deus. Por meio do profeta Natã, Jeová fez saber sua ira ao monarca. Temeroso das conseqüências, Davi resolveu se confessar a Natã, que perdoou sua culpa, mas não sem antes avisar: “Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morrerás. Todavia, porquanto com este feito deste lugar sobremaneira a que os inimigos de Deus blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá”. Dias depois, o recém-nascido adoeceu e faleceu.
Na opinião do padre Gustavo Crepaldi, penas como a imposta a Davi estão longe de representar um castigo da parte de Deus. “Na verdade, são conseqüências de nossos próprios atos. O pecado tem uma dimensão cósmica. Ao mesmo tempo que ofende ao Senhor abala a ordem cósmica do universo”, pondera.
O padre Luís Antônio Carqueijo Sé, da Paróquia São Sebastião, em Pederneiras (a 26 quilômetros e Bauru), lembra que as referências a castigos são comuns no Antigo Testamento porque eram parte da cultura da época.
“As sagradas esculturas têm um lado histórico e um outro teológico. Embora acreditasse no perdão, o povo daquele tempo sempre buscava a revanche. No cristianismo, essa lógica é invertida. As pessoas passam a acreditar em expressões como ‘Vá e não peques mais’ ou ‘Ofereça a outra face’”, afirma.