A crise financeira mundial já traz reflexos aos hábitos de consumidores bauruenses. Ultimamente, o que mais se ouve é a palavra “corte”. Em Bauru, alguns setores, como, por exemplo, o de transporte e alimentação, sentem os reflexos e pensam em estratégias para driblar a crise. Segundo o economista Reinaldo Cafeo, o momento é de cautela e requer um olho no dinheiro e outro nos gastos, para evitar amargas conseqüências no orçamento.
Até a população de menor renda, que, nos últimos anos, passou a consumir mais, em função do maior acesso ao crédito, está em alerta. Uma pesquisa realizada pela McCann Erickson, em sete países da América Latina, entre eles, o Brasil, mostra que, com o cenário econômico desfavorável, cerca de 88% dos brasileiros, pertencentes às classes C e D, acreditam que suas famílias serão afetadas de alguma forma pela atual crise financeira mundial.
Intitulado “Retratos da Crise: As classes C e D em Estado de Alerta”, o estudo aponta que a probabilidade de redução do consumo e desemprego são os maiores medos, mesmo entre aqueles que esperam não serem afetados.
No Brasil, foram ouvidas 618 pessoas economicamente ativas, de ambos os sexos, entre 24 e 60 anos, com renda familiar entre R$ 607,00 e R$ 3.033,00. Cerca de 55% desta faixa da população acha que sua família será afetada pela crise, 32,4% acha que será pouco afetada e 12,1%, nada afetada.
Para a empregada doméstica Doris Lima Franco, 66 anos, a crise já chegou e o “corte” foi a solução encontrada. Diante da situação, as idas ao salão de beleza diminuíram. “A primeira coisa que cortei foi a manicure e o cabeleireiro. Com essa situação, temos que nos prevenir e economizar. O primeiro supérfluo já foi cortado”, afirma.
Na casa da promotora de vendas Carmem Solange de Moraes, 44 anos, o aumento nos preços dos produtos alimentícios assustou e para não estourar o orçamento, os produtos que sofreram reajustes altos foram substituídos por similares com preços mais vantajosos. “Por enquanto, não tivemos que fazer nenhum corte, mas sentimos que o setor de alimentação teve reajuste. Por isso, estamos trocando produtos”, revela.
“Ainda não é hora de se desesperar. Acredito que é preciso esperar e caso não tenha outra saída e a crise chegar de verdade, terei que me adequar”, acrescenta a promotora.
Com o aumento no valor dos alimentos e a chegada da crise, Carmem não foi a única afetada. Restaurantes de Bauru registraram suave queda no movimento.
Segundo Fábio Borgues de Souza, sócio-proprietário de dois restaurantes e choperias, um no Jardim Higienópolis e outro no Jardim Panorama, o faturamento dos estabelecimentos só não foi prejudicado pela crise porque os preços dos produtos tiveram reajuste de 20% no período de um ano.
“Percebemos queda no movimento. Acredito que isso aconteça porque a população está assustada e comer fora de casa não é essencial”, conta. “Apesar de não ser gritante, a queda foi significativa, mesmo no começo de ano que é um bom período para nós. Agora no meio do ano, a situação é complicada. Então, se o quadro econômico continuar, vamos ter que adotar táticas como o corte de custo e investimento em propaganda para não ficarmos esquecidos”, complementa o empresário.
Em um restaurante do Centro, que serve apenas almoços, a queda foi de 20% no movimento. “Para tentar amenizar a situação, criei promoções e aguardo resultados”, afirma o proprietário, Valderlei Ferreira Santos.
Os bauruenses que utilizavam táxis resolveram optar por outros meios de locomoção com a crise. O reajuste nas tarifas de táxi, de 56% no final do ano passado, é o fator que mantém a renda dos taxistas. Segundo o taxista Silvio Santos Ferro, nos meses de janeiro e fevereiro a categoria sente uma queda na procura pelo serviço, mas nada comparado com a queda de 2009. “Calculo que cerca de 30% dos passageiros deixaram de me procurar”, revela. “Em casa, ainda estou mantendo o padrão, pois acredito que a crise seja passageira”, complementa.
O mesmo acontece com o taxista Danilo Kauata. “A queda foi pequena, mas preocupa. Por enquanto, estou levando uma vida normal. Vamos ver mais para frente”, conta.