Quando pequeno, o quanto gostava de carnaval! Era-me um mundo encantado, cheio de sonhos e fantasias, verdadeiro conto de fadas. Confetes, serpentinas, bisnagas de água (os adultos usavam lança-perfume) e máscaras, muitas máscaras. Por detrás delas, a gente podendo ser outro, o herói que habitava em nós, ou o monstro que buscava assustar as menininhas desavisadas. Coisas de criança em festa de momo. Gostava de ir apreciar o chamado carnaval de rua, o corso – carros enfeitados sobre os quais moçoilos e donzelas cantavam marchinhas e jogavam serpentinas que a gente nas calçadas disputava pra ver quem ajuntava mais as sobras. O corso acontecia nas ruas Batista e Primeiro de Agosto e sempre se encerrava com o popular Caré e suas passistas, uma espécie de escola de samba que Caré regia com a dignidade de um rei africano. Elas em seus passos eletrizantes, recheados de volteios sensuais e muito samba no pé, inflando a imaginação da molecada, deslumbramento para o meu coração provinciano.
Havia também o carnaval dos clubes, famosos por seus bailes: as matinês para as crianças à tarde, e à noite para os adultos (como atualmente). Vizinho de casa havia um clube. O Esporte Clube Paulista. Não era sócio, ficava ali à porta, nas tardes de domingo e da terça-feira gorda, como um menino diante de uma vitrine, olhando, numa inveja bem comportada, os foliões felizes em seus trajes de pierrôs, colombinas arlequins, palhaços, alegres, donos do mundo. Sempre que me recordo desses tempos, cantarolo a canção de Batatinha, como se ela tivesse sido escrita especialmente para mim: “Todo mundo vai ao circo, menos eu menos eu, como pagar ingresso se eu não tenho nada, fico de fora escutando a gargalhada”. Anos mais tarde, num poema sobre nossa cidade, ao tentar retratar o “AVTOMOVEL CLVB DE BAVRV”, simplesmente interroguei: “Nunca entrei lá. É proibido?”. Amplificava assim, num plano simbólico, um sentimento que deveria ser o de muitos outros, os quais também não nasceram em berço esplêndido, pois o AVTOMOVEL era lugar de gente privilegiada, seus bailes da corte em tempo de república, assim a gente imaginava.
Interessante: o carnaval, nascido com o intuito de produzir festejos capazes de liberar o povo da ordem e hierarquia vigentes, promovendo sujeitos, ainda que de forma mascarada, contraditoriamente provocava sentimentos de marginalização, revelando nossa verdadeira identidade, aquela de que gostaríamos de nos livrar, pelos menos durante as festividades de momo. De certa forma, a delimitação dos es-paços (quem podia e quem não podia freqüentá-los) era uma sinalização inequívoca de nosso lugar, o lado de fora. Assim, se o clube vizinho (de caráter mais popular) já me era inacessível, o AVTOMOVEL era impensável! Essas reflexões vêm a propósito: muitos estão lamentando, e muito, a falta do carnaval de rua em nossa cidade, entendido esse carnaval como desfiles de escolas de samba. Pois, dos limões seria bom que fizessem uma limonada. (Desculpem a frasezinha manjada..., não me ocorreu nada pior). Faça-se, sim, um carnaval de rua, mas dentro de um espírito carnavalesco original. Organizem-se blocos, principalmente dentro de uma verve humorística, saiam pelas ruas, manifestem suas carências, seus sonhos, suas desilusões, botem para fora seus humores, suas críticas.
Bakhtin, pensador russo que se dedicou à compreensão do mundo carnavalesco, ao pesquisar a sociedade medieval, distinguiu dois tipos de festas nessa sociedade: a oficial e a popular. Enquanto a festa oficial tinha um tom sério, oferecendo aos espectadores verdades pré-fabricadas, vitoriosas, dominantes, que assumiam a aparência de verdades eternas, imutáveis e onde o princípio cômico lhes era totalmente estranho, as festas populares por seu lado promoviam o riso, a irreverência, até comumente a grosseria, e mesmo o obsceno, revelando por outra ótica, verdades ocultadas pelo sistema.
Por que não usarmos da prerrogativa do carnaval para mostrar nossas verdades, tão diferentes das verdades oficiais? De minha parte, não mais me seduzem os festejos de Momo. A vida se encarrega de mudar nosso humor, transformando vícios em virtudes (o que não é o meu caso), alegrias em tristezas, expansões em retraimentos.
Voltei a ser aquele menino a espiar o carnaval de longe, sem alegria, até mesmo com muito fastio. Ultimamente tem sido assim. Mas meu riso não importa. Importa que vocês estejam felizes. Façam, pois, desses dias de folia, momentos em que vocês possam ser vocês mesmos. Nem que para isso necessitem usar máscaras.
O autor, Luiz Vitor Martinello, é professor e escritor