Em 24 de fevereiro de 1932, um decreto do Código Eleitoral Provisório permitiu que as mulheres brasileiras tivessem direito de votar. Porém, somente as casadas, com permissão dos maridos, as solteiras com renda própria e as viúvas podiam ir às urnas. Sete décadas depois, mulheres votam e são votadas, mas ainda enfrentam obstáculos para se firmarem na política.
Acyr Santinho Motta, presidente do Conselho Municipal da Condição Feminina, lembra que a luta pelo direito do voto feminino no Brasil começou em 1910, com Leolinda de Figueiredo Daltro. O processo seguiu em 1922, com a fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, pela líder Berta Lutz. O direito só foi alcançado há 77 anos, com uma série de restrições. “Nesse início, as mulheres não eram obrigadas a votar e as que desejavam, eram malvistas pela sociedade. Votar não era de bom tom para uma mulher direita”, conta.
Desde a década de 1940, o voto da mulher é irrestrito. Apesar disso, a participação de mulheres na política nacional ainda é muito a crescer. “Falta à mulher trabalhar na sua preparação política, se envolver. Hoje, é difícil para uma mulher que trabalha e cuida da família, se dedicar a uma carreira eleitoral”, pondera. Para Santinho, o que importa é a participação. “Se não quiser ser candidata, vote bem. Valorize-se e cobre o seu candidato”, destaca Santinho.
Representante feminina no executivo, a vice-prefeita Estela Almagro (PT) destaca a importância da data, mas avalia que ainda falta muito para a brasileira exercer todo o potencial na política. “É preciso um investimento em cultura e educação para mudarmos isso”, destaca. A vice-prefeita lembra que o medo, as jornadas múltiplas, a falta de recursos e apoio na família são alguns dos empecilhos enfrentados pelas mulheres.
Ela também aponta a falta de estrutura. “Muitas saem candidatas apenas para cumprir cotas de mulheres candidatas. Outras precisam lutar contra uma agenda, uma tradição dentro do partido para viabilizar sua candidatura. Assim, vão para uma eleição sem estrutura de campanha.”
Apesar de avaliar que o ritmo das mudanças não é tão acelerado quanto o preciso, Estela acredita que uma mudança na forma como a população enxerga a política seria uma grande evolução. “Já quebramos tantos tabus. Espero que a gente vença mais esse”, diz.
A única vereadora eleita nas últimas eleições, Chiara Ranieri (DEM) acredita que os eleitores já têm nova postura. “Escutei que mulher não vota em mulher, que mulher não gosta de política. Mas já houve muitas mudanças. O eleitorado está mais jovem. As mulheres se interessam mais”, afirma. Porém, ela avalia que ainda há erros nas campanhas. “A mulher tem mais medo de se expor, e por isso não ousam”, observa.
A vereadora também aponta a falta de apoio familiar e de investimentos como os principais obstáculos enfrentados pelas mulheres na política. “Muitas vezes, falta estrutura e apoio dos familiares. Fica difícil fazer campanha assim. Como a mulher cuida da família, vai para o trabalho e depois para um bairro, fazer campanha, se não tiver esse apoio?”, destaca.