Tribuna do Leitor

Natal em fevereiro


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A cidade de Natal brilha no silêncio de uma noite vagarosa e grávida de encantos. É madrugada, e depois do avião sobrevoar ondas de nuvens, depois de uma vista panorâmica do horizonte multiforme da “Cidade do Sol”, o calor desprendido em gotas sensíveis provoca uma sensação de paz e equilíbrio. Em Natal, tudo é alegria e inspiração, renovo e contentamento. As ruas são artérias de um coração pulsante de beleza e vida. Os edifícios modernos, como que construídos em larga escala, contrastam com prédios antigos, remanescentes do passado cultural, patrimônios incalculáveis de uma época em que Natal ainda não era conhecida como a “Cidade Espacial”.

O Sol de Natal usa bermudas e óculos escuros, balança na rede, numa varanda fresca e meditativa, e é intenso, privilegiando a cidade com raios densos de magia, que hipnotizam os sentidos durante as caminhadas de mãos dadas às margens das praias, ou sob as árvores frondosas no Parque das Dunas. O Sol de Natal transborda os olhos de luzes e sonhos, nos momentos de contemplação do Atlântico, com as águas esparramadas preguiçosamente no encontro indescritível com o Potengi, o encontro que abraça a cidade numa permanência maravilhosa de oceano e rio. O Sol de Natal chove pétalas da aurora ao anoitecer, reflete-se nas dunas esparsas ou unidas numa cordilheira que enchem os olhos de espanto, tão presentes que são, bronzeia sutilmente, dialoga com o dia constante de esperança e harmonia. O Sol de Natal mergulha todas as madrugadas nas águas azuis, no banho necessário para refrescar de calor a “Esquina do Brasil”, ou “Esquina do Continente”, assim chamada devido à localização estratégica em relação às demais capitais do nordeste, do país e da América do Sul.

Caminhar em Natal é passear reflexivamente, sentindo as vibrações históricas de uma cidade fundada em 25 de dezembro de 1599, ainda nos primórdios do Brasil. Pelas Rocas, bairro antigo que margeia o rio Potengi, a memória reporta-se ao romance “Cabra das Rocas” (1966), de Homero Homem (1921-1991), escritor e poeta potiguar, e a ficção salta diante dos olhos, com os personagens de outrora transitando numa realidade intensa de surpresas e sabores. Na ladeira da Ribeira, em direção à Cidade Alta, há um casarão construído em forma de chalé, de arquitetura simples, porém, imponente na importância. Trata-se do “Solar dos Cascudos”, onde viveu o célebre historiador, antropólogo e folclorista, além de advogado e jornalista, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX, responsável por estudos fecundos sobre a cultura brasileira. No bairro Lagoa Seca, uma árvore de mais de duzentos anos sombreia um pedaço da rua São José.

A árvore mística, natural da África, que supostamente propicia a vida eterna e protege contra o mau olhado, é um baobá, o mesmo que inspirou o escritor francês Antoine Saint-Exupéry (1900-1944) a incluí-lo em seu romance de maior sucesso “O Pequeno Príncipe” (1943), após uma estadia em Natal. Sobre o rio Potengi, o “Rio dos Camarões”, a Ponte “Newton Navarro”, Ponte de Todos, Ponte Forte-Redinha, surpreende pela beleza e inovação, ligando os extremos de Natal, numa coreografia sutil e dinâmica, sintetizando a permanência do novo e do antigo, no equilíbrio sutil entre preservação e desenvolvimento. As luzes da cidade de Natal banham as ruas de lirismo e calor, tudo é brilho e certeza de saudades, tudo é sentimento e vontade de conhecer cada lugar, de preencher cada espaço, de mergulhar em cada praia, de abraçar cada árvore, de percorrer cada duna, de viver a felicidade de cada momento. Natal é um paraíso.

Elson Teixeira Cardoso, escritor

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