Tribuna do Leitor

Um artista bauruense


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Caro JC. Meu nome é Domingos Meira, sou ator e diretor de cinema, botucatuense, 30 anos. Fiz mais de 20 curtas em Botucatu, entre 1994 e 2006. atualmente sou contratado da Rede Globo, onde fiz duas novelas e duas minisséries (ver curriculum em anexo). Estudei em Bauru, dois anos na USC, cênicas, e sei o quanto foi importante pra mim. O jornal JC cobriu meus trabalhos principais como cineasta: como os “No coração do gigante”, “Kabumm!!” e outros... (Marcos Zibordi, Su Stathopoulus, Ricardo Fela, etc.). Escrevo para homenagear um colega de faculdade que fez muita diferença em minha tragetória profissional. Um artista, bauruense - Huxley Ivens.

Diretor da Cia de Teatro Mandrágora, com um bom tempo de trabalho em teatro, realizado em Bauru. Quando conheci o Huxley na USC, em meados de 2000 ( ?), logo de cara eu percebi que era raro, singular e que se diferenciava. Era artista mesmo. Lia, culto, escrevia, poeta, ator, entendia de teatro e se destacava no cotidiano da faculdade. Logo nos entrosamos. E fizemos juntos alguns dos melhores trabalhos em grupo que já pude fazer na minha vida. Isso considerando que fui pra SP, transferido para a ECA-USP, cênicas, onde cursei mais dois anos com outra turma em e fiz oficina da Globo, no RJ, com outra turma, dentro do Projac. Nos meus últimos dias de USC, adaptamos para aula de interpretação trechos de Morte e Vida Severina, com uma performance que começava com um enterro de “rede” no intervalo lotado da aula e terminava no palco do teatro da USC, com um monólogo, que tive a honra de interpretar e trabalhar com a professora Áurea por um bom tempo. Huxley escrevera o texto encomendado pela professora para encerrar a adaptação na voz de Severino, resumindo, em poesia, toda a dor de um retirante faminto e miserável.

O texto ia muito além do que se pudesse esperar, um tapa na cara! (segue também em anexo), livre de clichets, denso e retratando com precisão e graça aquela dor como se ele tivesse vivido aquilo. Foi incrível, pois eu trabalhei o texto em aula por um bom tempo. Dois anos depois, em SP, batalhando, estudando e trabalhando como modelo na mega, surgiu finalmente um teste pra tv. Era a primeira novela desta nova fase da Record, “Metamorphoses. Graças a uma coincidência incrível, eu acabei no teste. Já era 22 de dezembro de 2004, eu já estava em Botucatu de folga, pro Natal. Me liga o meu agente me passando o teste, na manhã do dia seguinte, em SP. Era para levar um texto que eu escolhesse. Era a véspera, o unico pronto e denso era o monólogo do Huxley. Mas era para um nordestino, nada a ver com meu perfil real. Requeria sotaque e era muito arriscado. Mas eu arrisquei. No teste a diretora questionou minha escolha do um texto. Sotaque? Implicou... mas permitiu.

Fiz o texto. Me emocionei profundamente na ocasião com o texto. A adrenalina ajudou. Fiz o texto e derramei aquela lágrima, na hora certa. Impressionei muito a diretora, que é maranhense e representava a Tizuka Yamazaki. Ela chorou. Se identificou. E me escolheu. Eu peguei o papel e dali tudo aconteceu. O texto é uma unanimidade. Assim como Huxley. A peça “Romeu e Julieta”, que ele montou em Bauru com sua companhia, tem originalidade, estilo e densidade. Difícil ser original num dos clássicos shakespirianos mais montados da história. Muito menos com poucos recursos. Merecia mais reconhecimento e talvez mais espaço e investimento. O fato é que este artista completo surpreende. Mesmo se esperando muito. Obrigado à USC, à cidade de Bauru, ao JC e especialmente ao Huxley, por terem contribuido para a formação de meu olhar artístico.

Domingos Meira

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