Dom Maurício Grotto de Camargo, novo arcebispo de Botucatu (100 quilômetros de Bauru), tem 51 anos, 40 deles dedicados à Igreja Católica. Ex-bispo de Assis, no oeste do Estado, ele aceitou, recentemente, o desafio de substituir dom Aloysio Leal Penna (afastado por problemas de saúde) à frente da arquidiocese que abrange uma população estimada em 535 mil pessoas (das quais 84,8% seriam católicos) distribuídas em 20 cidades e quatro distritos.
Natural de Presidente Prudente, filho de católicos fervorosos - o avô materno, Francisco Grotto, mestre de obras, foi quem construiu a igreja matriz da cidade, mais tarde elevada à condição de catedral -, decidiu entrar para o seminário quando tinha apenas 11 anos de idade.
Por livre e espontânea vontade, garante. “No meu caso, não foi a família quem me mandou para o seminário. Fui eu quem insisti para entrar”, afirma dom Maurício, que se ordenou no início dos anos 80, época em que o País se redemocratizava e os movimentos sociais lutavam para resgatar o espaço perdido nos “Anos de Chumbo”.
Mais ou menos naquela época, o ainda padre Maurício já havia desenvolvido uma visão crítica em relação às coisas do mundo e da Igreja. “A filosofia e, principalmente, o contato mais aprofundado com os evangelhos de Jesus Cristo é que me ajudaram a ganhar essa consciência”, explica o arcebispo.
Desde então, dom Maurício vem se colocando sempre ao lado dos movimentos sociais, das pessoas carentes e dos grupos marginalizados. Já recebeu ameaças, por conta de seus posicionamentos pessoais, e já foi criticado até mesmo por fiéis; também nunca foi de poupar as estruturas “iníquas” (segundo ele próprio define) da sociedade.
Entre 2001 e 2007, foi bispo referencial da Comissão Pastoral da Terra (CPT) - órgão ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) - em São Paulo. Atualmente, responde pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Estado. Na última Quarta-feira de Cinzas, dom Maurício recebeu a reportagem do Jornal da Cidade para uma entrevista exclusiva em que comentou a respeito de sua vida sacerdotal, das iniciativas sociais que vem apoiando nos últimos tempos e dos projetos que pretende levar adiante na Arquidiocese de Botucatu. Fez, também, duras críticas ao modelo econômico vigente no mundo atualmente.
Jornal da Cidade - Quando surgiu sua vocação para sacerdote?
Dom Maurício Grotto de Camargo - No meu caso, a vocação surgiu bem cedo. Eu tinha 11 anos quando decidi que iria me tornar padre. Fui eu quem insisti em ir para o seminário. Minha família era muito católica, mas nunca me obrigou a nada.
JC - Naquela época, o que mais chamava sua atenção na vida religiosa?
Dom Maurício - Penso que o que mais me atraía era a idéia da salvação de Deus chegando aos fiéis através da Igreja, na figura do sacerdote.
JC - Como foi o período de formação no seminário?
Dom Maurício - Fui para o seminário em 1969, quatro anos após o encerramento do Concílio Vaticano II. Naquela época, a Igreja Católica iniciava um processo de abertura, ao passo que o nosso País estava fechado politicamente, por causa da ditadura. Eu era muito novo, e quase não tinha noção desse processo. Minha consciência social só foi surgir no final dos anos 70, quando tomei contato com a filosofia. É então que a gente aprende a pensar e a criticar...
JC - Inclusive a fé?
Dom Maurício - No caso da fé não é diferente. Depois que adquirimos um olhar crítico, passamos a ver que existem inúmeras crenças no mundo e que, mesmo dentro de uma determinada religião, há uma diversidade enorme de práticas, algumas delas não muito corretas.
JC - No caso do catolicismo, o que o senhor considerava, já naquela época, passível de ser criticado?
Dom Maurício - Analisando à luz dos evangelhos, o que sempre me chamou a atenção é aquilo que, na prática, não corresponde ao que é pregado pela Igreja. Acho incoerente, por exemplo, um cristão ir à missa e tomar a comunhão, mas, no dia-a-dia, agir em desacordo com aquilo que aprendeu na mesa sagrada. Ainda no seminário, eu costumava pensar comigo mesmo: ‘Quero ser padre, mas sendo o mais fiel possível à palavra de Deus. Quero cuidar dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados.’
JC - É possível dizer que a fé, para ser verdadeira, precisa ser posta em prática?
Dom Maurício - Sim, é possível. A fé consciente é sempre engajada em favor do próximo. Quando nos abrimos para o amor ao irmão e para a vida em comunidade, estamos, na verdade, aprendendo a cuidar melhor de nós mesmos.
JC - Qual seu primeiro trabalho depois de ordenado?
Dom Maurício - Fui ordenado em abril de 81 e, logo em seguida, assumi a função de vigário na Paróquia Santa Rita de Cássia, em Prudente. Um ano depois, fui mandado para Álvares Machado, também no Pontal do Paranapanema, onde atuei como pároco.
JC - Naquele tempo, já havia conflitos de terra na região?
Dom Maurício - Sim. No início da década, já havia uma grande agitação dos movimentos sociais nas cidades do Pontal, principalmente em Teodoro Sampaio. É um engano, porém, pensar que o conflito de terras no oeste do Estado se iniciou nos anos 80. O problema é bem mais antigo do que as pessoas pensam.
JC - Sério?
Dom Maurício - Para você ter uma idéia, o problema vem do início do século passado (aponta para o mapa). Naquela época, esta região próxima à confluência dos rios Paraná e Paranapanema - que eqüivale à metade da área da Diocese de Prudente - era composta, basicamente, de terras devolutas. Ou seja, era tudo propriedade do Estado. Apesar de pública, a área não estava despovoada. Pelo contrário. Inúmeros pequenos agricultores ocupavam as terras na condição de posseiros e ali tocavam sua vida. Aí, por volta dos anos 40, o Governo do Estado passou a lotear aquelas glebas, distribuindo títulos de posse para pessoas que jamais haviam estado ali. Fazia isso para atender a interesses políticos e econômicos de correligionários.
JC - E os posseiros?
Dom Maurício - Começaram a receber ultimatos dos novos ‘proprietários’: ‘Vocês terão de sair daqui, por bem ou por mal’. Muita gente se viu obrigada a deixar o próprio lar para não ser morta. Os que resistiram acabaram assassinados. Se algum dia você for ao Pontal, terá a chance de encontrar algumas testemunhas dessa época de violência.
JC - Na sua opinião, como é possível que em um país como o nosso, de formação cristã - uma religião que prega o amor ao próximo e o desapego aos bens materiais -, possa haver tanta violência motivada por cobiça?
Dom Maurício - É a tentação da riqueza e do poder que mexe com a cabeça das pessoas. Tem gente que acha dinheiro é capaz de salvar almas. É um engano...
JC - Muitas daquelas terras griladas nos anos 40 e 50 já mudaram de mãos inúmeras vezes, correto?
Dom Maurício - Isso é um fato, mas as pessoas que hoje estão como ‘proprietárias’ daquela área têm direito apenas sobre as benfeitorias que fizeram nas glebas, e não sobre a terra em si.
JC - Por que o senhor pensa assim?
Dom Maurício - É o mesmo caso de alguém que compra um automóvel roubado. Se algum dia a pessoa for parada pela polícia, certamente acabará sem a mercadoria e não terá a quem reclamar. Oras, antes de fechar o negócio, deveria ter tomado o cuidado de checar a procedência do bem.
JC - Essa violência inicial é que tornou tão complexa a questão agrária na região do Pontal?
Dom Maurício - Houve outros fatores que ajudaram a complicar a situação. O pior deles talvez tenha sido o êxodo rural, impulsionado pelo chamado ‘Milagre Brasileiro’ dos anos 70. Havia uma ilusão entre os moradores do campo de que a cidade seria o melhor dos mundos. A industrialização foi um fenômeno mal conduzido em nosso País. Faltou planejamento e, sobretudo, uma política agrícola e agrária que incentivasse as famílias a permanecerem no campo. Aliás, ainda hoje falta ao Brasil uma política clara nesse sentido.
JC - Continuamos à mercê do agronegócio?
Dom Maurício - Certamente. Agora, com essa crise mundial, esse modelo passa a sentir os efeitos de suas próprias contradições. A crise demonstrou o quão iníquos são o agronegócio e o sistema nele baseado.
JC - Por que?
Dom Maurício - Porque não temos sequer como punir os abusos cometidos no mercado financeiro. A ‘punição’ está vindo na forma de falência das empresas. O problema é que os empresários sérios também estão pagando por erros que nem cometeram. As pessoas mais pobres então, nem se fale.
JC - Desde que época o senhor é envolvido com a luta pela reforma agrária?
Dom Maurício - Faço parte da CPT desde meu primeiro ano como sacerdote. Interessante é que, naquela época, muitos fiéis confundiam minha postura com comunismo. Isso é um equívoco imenso, pois o comunismo é ateu e tem um projeto que difere radicalmente da doutrina da Igreja. Na minha visão, o comunismo, se colocado em prática, não passará de um capitalismo de Estado que cometerá as mesmas atrocidades que presenciamos nos dias de hoje.
JC - Além das críticas recebidas, o senhor já chegou a ser ameaçado por conta das idéias que defende?
Dom Maurício - Sim, várias vezes. As ameaças quase nunca vêm de maneira explícita. Em geral, alguém chega para você e diz: ‘Olha, toma cuidado com o que você anda dizendo...’ Uma vez, na estrada, cheguei a ser perseguido por um carro.
JC - Como foi?
Dom Maurício - Eu estava voltando de Rosana por uma estrada que cruza o Parque Estadual do Morro do Diabo. É um trecho pouco movimentado. Percebi, então, que um carro me seguia. Olhei pelo retrovisor e reconheci o motorista; era um matador de aluguel que atuava na região. Naquele dia, se eu não afundo o pé no acelerador, corria o risco de não ter sobrevivido para contar a história.
JC - O senhor sentiu medo?
Dom Maurício - Estou pronto para morrer a qualquer dia ou hora, mas não à toa e nem de maneira estúpida. Daquele dia em diante, passei a tomar mais cuidado, mas nunca abri mão de defender aquilo em que acredito.