Finalmente, descobri o otimismo em Kafka. Na “Metamorfose”, Gregor Samsa, agora um inseto (provavelmente uma barata), vê a delícia que é caminhar de cabeça para baixo com suas perninhas coladas no teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka. Para quem, como eu, já na está mais com ânimo para rasgar a fantasia ou de enfrentar congestionamento no trânsito e fila na padaria da praia, os dias de Carnaval reservam bons momentos para reler os livros que marcaram a nossa existência. Li o relato mais popular de Kafka - Metamorfose - quando tinha 14 anos e, cada vez que pego no livrinho, aprendo coisas novas. Ou faço uma leitura diferente levado pelas experimentações da vida.
Um homem acorda transformado em um inseto. Mas já era um inseto antes: a família, desprezando seu interesse pelas artes, o chamava de “inseto sujo”. A metamorfose, na verdade, é a sua libertação. Alma de homem, patas de inseto. Finalmente, um artista livre das aporrinhações do pai, que quer que o filho faça algo mais útil na vida. O artista é sempre um excluído, até que a fama e o dinheiro venham em seu socorro. Quando vêm... Às vezes, só depois da morte, como aconteceu com Van Gogh. Conseguiu vender um único quadro em vida. Assim mesmo, comprado pelo irmão Teo.
Para o artista sempre é Carnaval, embora o samba esteja mais para um tango-enredo. Kafka relata o sonho que teve em 1913, preso numa máquina dessas de fatiar presunto que o cortava em alta velocidade, em fatias muito fininhas. Há sonhos que devoram seus sonhadores. Para se proteger, o autor agarra-se a si mesmo. Diz um biógrafo de Kafka que a chave da sua literatura é o desejo de inclusão. O desejo de pertencer - de amparar-se em algo ou alguém. No entanto, os circunstantes estão aí, mais dispostos a nos reduzir a fatias como se fôssemos mortadela do que, pelo menos, nos ouvir. Já não digo procurar entender. Talvez por isso o escritor tenha relatos impenetráveis, fechados, não com uma, mas com várias chaves. Cada vez que o lemos, novas portas se abrem, nem sempre com soluções. Na maioria das vezes, com outros problemas. Sempre que pretendemos falar de absurdos e aberrações falamos de um mundo kafkiano. Em vez disso, um dos seus biógrafos, Gunther Anderson (Kafka: pró e contra/O processo, Ed. Cosac Naify) diz que ele é apenas um escritor realista. Minado de metáforas, é evidente. Há um momento em “O processo”, recorda Anders, em que um perplexo K., libertado enfim pelos burocratas que o prenderam sob acusações absurdas, em vez de fugir corre atrás deles. Também nós sofremos esse desejo insano de pertencer - a um grupo social, a uma moda, a um clube exclusivo, a uma crença, a uma simples roda de café.
Nos romances de Kafka , o mundo tem um caráter cíclico. As coisas sempre voltam e as palavras sempre se repetem. Continua assim. Na TV, as mesmas notícias: crise econômica, bombas que reduzem pessoas e casas a pó, franco-atiradores que matam a esmo, seqüestros, estupros, corrupção. Às vezes, é melhor correr atrás dos carcereiros e preferir a proteção das grades. Em “O Castelo”, o personagem é observado por todos. O que mais fazem hoje as câmeras escondidas, as imagens espalhadas pela Internet, os paparazzi e os big brothers? A felicidade pode estar no ato da gente se metamorfosear para poder observar a vida do alto, de cabeça para baixo, graças a facilidade de grudar as perninhas no teto. Imune até a primeira chinelada. Depois de ler e pensar sobre essas coisas, durante um Carnaval sem confete e serpentina, dei razão a Guy de Maupassant no ensaio sobre Flaubert, de 1888: “É preciso ser bem louco, bem audacioso, bem presunçoso ou bem tolo para ainda escrever hoje em dia”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC