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Cinema: uma arte que também é uma indústria


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O cinema levou muito tempo para ser reconhecido como uma arte plena, dividido entre comércio e criação. Hoje, sua festa maior é a entrega do Oscar. O fato dos premiados terem pequenos orçamentos pode ser interpretado como: a crise bateu na Meca cinematográfica. Isso dá oportunidade aos espectadores de apreciarem um produto da conhecida Bollywood. O termo surgiu da fusão de Bombaim, antigo nome de Mumbai, cidade onde se concentra a indústria indiana de cinema, e de Hollywood. Em 1931, produziram 200 películas e “Alam Ara”, o primeiro filme sonoro indiano.

Coincidência ou não acabei de ler “O rastro do sândalo”. O livro conta a história de Muna e sua irmã Sita separadas na infância e, através delas, as autoras denunciam o sofrimento imposto às crianças órfãs. Muna torna-se uma atriz famosa e acaba em Hollywood, pois Bollywood está na moda. Agora, os filmes indianos são vistos no mundo todo e Muna Kuekarni torna-se o exemplo da mulher de sucesso, um mito. Em “O rastro do sândalo”, a Índia forneceu os atores, inclusive Muna, para filmar nos Estados Unidos. Saindo da ficção para a realidade a questão é: Bollywood invadiu Hollywood ou Los Angeles está para ser transformada em um bairro da indústria de Mumbai? É claro que nada é tão linear nem tão transparente nesses casos, mas o fato de “Quem quer ser um milionário” ser consagrado na noite do Oscar tem um simbolismo. Um sinal direto pode ser a Dreamworks/Disney estar negociando com o grupo indiano Reliance, um contrato de milhões de dólares, de olho no mercado global. É voz corrente que, as grandes bilheterias/lucros, acontecem fora da América.

Assim como na fictícia vida de Muna, no filme premiado, a Índia ofereceu os atores e o diretor inglês Danny Boyle transformou em sucesso mundial a obra cinematográfica. “Quem quer ser um milionário” conta a história de Salim e Jamal, dois irmãos, ex-moradores de uma favela de Mumbai, que participam de um programa de televisão, uma espécie de BBB, em busca do prêmio de um milhão. O filme tem uma fotografia bonita e foi comparado a alguns filmes brasileiros por causa da luminosidade e da semelhança entre favelas e a pobreza retratadas. Comparação que Boyle detestou, inclusive.

O músico indiano, autor da trilha sonora, também recebeu sua estatueta, mostrando algo universal, música pop, relembrando o cinema comercial americano. Alguns indianos classificaram o filme como ruim, por se tratar de um espelho infiel da realidade. De maneira inconsciente, os críticos exteriorizam que o país está diante de um grave problema, o gradual desaparecimento da imagem, da palavra, da história do cinema na Índia. Resumindo: a possível perda de identidade, devido à sua internacionalização.

A autora, Janaina Fainer, é produtora cultural

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