Bairros

Improvisação é marca dos templos nos bairros

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Improvisados. Poucos dos templos religiosos, principalmente os instalados nos bairros mais afastados da região central, tiveram seus prédios construídos para essa finalidade. A grande maioria funciona onde antes estavam bares, lanchonetes e pequenas fábricas, que atualmente desativadas passam a ser os alvos preferidos de diversas denominações.

A reportagem do JC nos Bairros visitou em diversos bairros esses templos, que durante o dia permanecem fechados. A improvisação nesses locais vai além do prédios em si e se estendem a cadeiras de plásticos e banheiros minúsculos, também características desses locais.

Para Anderson Adriano, pastor da Igreja Presbiteriana do Redentor, um bar não pode ser transformada num local de oração. Ele, que não concorda com o crescimento descontrolado do número de templos religiosos na cidade, condena ainda a facilidade com que as igrejas são abertas na cidade.

Na visão de Adriano, a fé não pode ser tratada como uma mercadoria. “Hoje as pessoas pertencem a uma igreja, no dia seguinte já estão em outra e amanhã abrem seu próprio ministério”, comenta. “Antigamente a pessoa ficava desempregada e abria uma padaria ou uma lanchonete na porta de casa para sobreviver, hoje ele abre uma igreja”, lamenta.

O pastor Jobe Godoy, da Igreja Assembléia de Deus Ministério Madureira, também acredita que esse mercado da fé mais atrapalha do que ajuda na divulgação do Evangelho. “A igreja séria é quem mais sofre”, opina.

A Assembléia de Deus, que é igreja com o maior número de adeptos em todo o Brasil, também assiste seus fiéis serem “tentados” por novas denominações que prometem desde sucesso financeiro a graças divinas.

Eric Costa Dias, pastor da Igreja Internacional da Graça em Bauru, também percebe a proliferação de pequenas igrejas nos bairros da cidade. Mesmo com toda a publicidade devido aos programas de televisão, a igreja resolveu também manter em diversos bairros da cidade salões para realização de campanhas e trabalhos. “Na verdade, são também pequenas igrejas, todas com ações coordenadas pelo templo central”, afirma Dias.

O pastor conta que, além do templo localizado na região central, outros cinco salões estão em funcionamento na cidade. “O maior deles está no Núcleo Mary Dota, que recebe, em média, 60 fiéis por culto. Os outros quatro templos, instalados na Vila São Paulo, Núcleo José Regino e jardins Jaraguá e Nova Esperança, recebem cerca de 30 fiéis nos cultos que são realizados”, relata.

Facilidade

Quem deseja abrir uma igreja ou um templo religioso em Bauru não precisará de muito esforço. De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), pela lei municipal, templos religiosos não pagam impostos municipais, estaduais ou federais. Para se abrir uma igreja é preciso apenas ter o alvará de uso e ocupação do solo. Para tanto, o responsável deve seguir alguns passos.

O primeiro é fazer uma consulta prévia para ver se há viabilidade de construção no local escolhido, de acordo com a Lei de Zoneamento. Depois, deve-se apresentar na secretaria a inscrição municipal, o Habite-se e o auto de vistoria do imóvel realizado pelo Corpo de Bombeiros, o laudo de prevenção de combate a incêndio com o projeto e Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) do engenheiro responsável e, por último, se a igreja não possuir um estatuto de criação, pagar a taxa de licença R$ 50,48. Caso possua o documento, ela estará isenta do pagamento.

Apresentada toda a documentação necessária, a licença para funcionamento da igreja sai em pouco tempo, no máximo em até 40 dias.

De acordo com a socióloga Sílvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), esse “caminho fácil” para se montar uma igreja é encontrado por todo o País. “Os espaços em bairros mais populosos são disputados como se fossem ouro por diversas grupos religiosos”, afirma.

Atrativos

Aqui e agora. Muitas igrejas, chamadas de neopentecostais atraem novos seguidores com a promessa de benefícios imediatos para quem seguir essa ou aquela denominação. A procura por um emprego, um amor ou até mesmo conseguir o pagamento das dívidas levam as pessoas a procurarem cada vez mais por novas denominações religiosas.

O pastor Jobe de Godoy, da Assembléia de Deus Madureira, condena essa tática para atrair as pessoas para dentro dos templos. “As pessoas devem procurar a religião pela fé. Como pastor, não posso jamais prometer um emprego ou uma graça divina para quem procura a nossa igreja”, explica.

Para Eric Costa Dias, pastor da Igreja Internacional da Graça, o motivo que faz com as pessoas passem a freqüentar essa ou aquela igreja não é a promessa de se conseguir um bem material, mas sim a procura por um preenchimento espiritual. “Às vezes, o andamento do culto, o jeito de pregar do pastor toca no coração das pessoas e elas se sentem felizes em estar naquele lugar”, explica.

Para o pastor Anderson Adriano, da Igreja Presbiteriana do Redentor, as igrejas devem ser vistas como locais onde se pode encontrar Deus e não onde se possa resolver problemas financeiros. “O culto deve ser um momento de adoração a Deus e não pode ser visto como um show”, completa.

Desproporcional

A Igreja Católica mantém 23 paróquias em Bauru. A informação está no site oficial da própria Diocese do Espírito Santo, localizada na cidade. As demais 295 instituições religiosas contabilizadas pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) são de outras denominações religiosas, em geral, neopentecostais. Mas como o município não possui um controle rígido do número de templos religiosos em atuação na cidade, a própria Seplan admite que o número de templos pode beirar a casa de 600 instituições, o que amplia ainda mais a desproporção. A Diocese de Bauru foi procurada para comentar quanto tempo leva, por exemplo, para autorizar o funcionamento de um nova igreja ou capela, e sobre o crescimento do movimento pentecostal na cidade, mas até o fechamento dessa edição não havia se manifestado.

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