Sou amigo do Roque Ferreira há muitos anos, mas nem por isso vou deixar de me manifestar, no campo das idéias, sobre as declarações dele, publicadas nos jornais de Bauru e numa revista de circulação nacional. Discordo frontalmente quando ele diz que “o racismo que existe no Brasil é fruto dos abismos econômicos que separam as classes sociais”. A combinação das desigualdades econômicas, de gênero e raça, é que produzem uma distancia social entre negros e não-negros que só pode ser corrigida com políticas e investimentos públicos que garantam educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis, para beneficiar negros e brancos pobres e a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, onde está contemplada a política de cotas para afrodescendentes nas escolas públicas. Defendo as cotas, por um determinado período, a título de reparação rápida, da dívida que o País tem com os negros. Aliás, a implementação de cotas nas universidades públicas não é nenhum favor, é uma obrigação do Governo Brasileiro, que é signatário da Conferência Mundial de Durban, em 2001, na África, quando ficou definido que todos os países que exploraram a escravidão seriam obrigados a implantar as políticas de reparação, às quais eu me referi. Na minha avaliação, quando o Roque diz que as pessoas não são discriminadas pelo tom de pele ele está renegando um passado histórico, quando por mais de 200 anos, durante o período pós-industrial os negros foram explorados e sequer participaram do processo de construção da sua cidadania. Até hoje a cor da pele é um fator determinante na exclusão nas mais diversas camadas sociais.
O autor, Ademir Elias, é presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra