Ser

O resgate da feminilidade

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

A armadura masculina exigida das mulheres no mercado de trabalho já pode ficar no armário. A feminilidade conquista espaço como prêt-à-porter, a despeito das pressões sociais ainda bem mais pesadas que seios protuberantes. Em muitos casos, afetividade, sensibilidade e até vaidade não precisam mais se esconder atrás de caras de vilão. Mesmo ao assumir suas próprias características, tem mulher “mais macho que muito homem”, ao parafrasear “Pagu”, de Rita Lee, ainda pela ótica masculina.

Imersa em conflitos e cobranças, elas ainda hoje dançam canções de complexa coreografia. “O ranço patriarcal persiste, mesmo com a mulher ocupando espaço do homem no mercado de trabalho, mesmo a mulher dividindo com o homem a renda familiar, mesmo mantendo a prole sozinha. Ela ainda sofre as conseqüências de sua trajetória histórica. A mulher dá um salto de qualidade quando consegue conciliar as situações (feminilidade e mercado de trabalho). Mas é um embate duro”, afirma Maria Antonia Vieira Soares, doutora em sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.

Se atualmente elas conquistaram “licença” para demonstrar uma natureza menos dura ou racional como a do homem, precisam ser biônicas para atender tantas exigências sociais. São cobradas para respeitar padrões de beleza, ser boas amantes, mãe e profissional impecáveis. Se a meta não for atingida em qualquer um desses aspectos, correm o risco de reiterarem a antiga pecha de “sexo frágil” frente a eventuais frustrações.

“A mulher saiu de uma armadilha e caiu em outra. Sua história é muito complexa, não dá para soltar foguetes. Tem várias conquistas, mas a duras penas. Desenvolveu doenças caracteristicamente masculinas, como infarto e estresse. Ela tem que fazer duplamente o que o homem faz para ter a mesma valorização”, diz Maria Antonia.

De acordo com a socióloga, para determinados tipos de trabalho, a mulher ainda é excluída. Dilma Rousseff é exceção ao tornar-se ministra da Casa Civil. Até há pouco tempo, os ministérios da Educação ou da Cultura seriam os postos mais elevados a serem galgados por alguém do sexo feminino. Apesar de repaginada e mais feminina, Dilma, por exemplo, é conhecida por sua dureza tipicamente masculina.

“A mulher tem muito a lutar para quebrar esses preconceitos fortíssimos. Hoje, ela já consegue conciliar (feminilidade com mercado de trabalho). Mas tem aquela que, ao ocupar espaço tradicionalmente considerado masculino, se reveste de características mais masculinas que o próprio homem para se auto-afirmar naquele mundo que não é dela sob a ótica da ideologia que perpassa a nossa cultura. A mulher foi educada para ter o seu lugar e, muitas vezes, não consegue romper com isso para evoluir”, conclui Maria Antonia, que é professora do Departamento de Ciências Humanas da Unesp em Bauru, onde ministra aulas para os cursos de desenho industrial - programação visual, relações públicas e psicologia.

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