Figura constante nas páginas de fofoca, improvável não apontar Brad Pitt como um dos galãs cinematográficos da atualidade. Belo, carrega algo de sensível, inclusive no aspecto pessoal. É pai zeloso de prole grande. O ator representa bem a identidade mediana dos homens e mulheres de hoje. Num movimento de equilíbrio, elas e eles ficaram menos duros (por que não mais femininos?) frente a um movimento geral de transformação da sociedade.
“É um momento de busca de novas posturas. Eu acredito que estejamos atingindo um certo ponto de equilíbrio, pelo menos no plano das representações, do oficial. Tem um homem que é másculo, mas não machista. Uma mulher feminina sem ser aquele tipo feminino vulgar”, diz o antropólogo Cláudio Bertolli, professor da Unesp. De acordo com ele, o feminino foi retomado, mas em outros termos. Na mulher, é autônomo e independe do homem.
“A gente vai para as discussões da pós-modernidade, narcisista: sou feminina por prazer próprio. Para curtir. Não para o homem curtir”, comenta Bertolli. Ele ressalta, no entanto, que, para a antropologia, a retomada da feminilidade passa pela questão da identidade. A da mulher começou a ser redefinida a partir da Segunda Gerra Mundial. Numa visão marxista, ela vai para o mercado de trabalho para ampliar a oferta de mão-de-obra, contratada a custos mais baixos.
“Tem um estudo já antigo do Harry Braverman. Ele diz que se a mulher acha que ganhou liberdade porque foi integrada ao mercado, caiu num grande engodo. Saiu da órbita do marido, mas caiu na do patrão. Ela é superexplorada, ganha menos que o homem e acumula atividades”, comenta. Mas nessa transformação, cuja abrangência ainda era desconhecida, a mulher se reposiciona na sociedade e se masculiniza, segundo a ótica masculina. Porém, como a identidade é relacional, depende do outro, a do homem também muda.
“São processos que levam décadas para serem percebidos. A radicalidade (da mulher) não deu em nada. Vamos observar, a partir disso, uma retomada do feminino, mas em outros termos”, acrescenta Bertolli. Antes dos gêneros trilharem um caminho que leve ao equilíbrio, o antropólogo recorre aos filmes para mostrar as diferenças.
“No final dos anos 50 e início dos anos 60, quem são os heróis cinematográficos? Homens másculos como Rock Hudson e Kirt Douglas. A partir de meados dos anos 60, Dustin Hoffman. É sensível, frágil. É o homem buscando socorro numa mulher. Enquanto a mulher vai se masculinizando, o homem vai se afeminando. Nos anos 80 teve todo um movimento de mulher abrir a porta para homem, homem sentar no colo de mulher, mulher pagar a conta”, relembra ao citar a época de sua graduação.