Ser

‘Toda mulher pode conquistar seu espaço’

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 10 min

Não é preciso ter uma história de vida marcada pelo sofrimento, ou por uma grande conquista, ou ainda, por um feito marcante que ganhou destaque na mídia para ser considerada uma pessoa de valor. Para a professora doutora e pesquisadora Lídia Maria Vianna Possas, coordenadora do grupo de pesquisa “Cultura & Gênero” da Unesp de Marília, se algumas mulheres conseguiram conquistar seu espaço, todas podem. A luta é individual, mas possível para todas as que estiverem dispostas a utilizar as ferramentas fornecidas pela vida e pela própria determinação de vencer.

A professora recebeu a reportagem do Jornal da Cidade em sua casa, em Bauru, com a solicitação inicial de falar sobre algumas mulheres que tiveram papel importante na história do Brasil. Mas, durante a entrevista, ela cuidadosamente revelou sua preocupação em cometer “pecados” como o de perpetuar mitos femininos, criar novos estereótipos (imagem padronizada) ou de passar a mensagem equivocada de que tais mulheres são modelos cujas ações e comportamentos devem ser seguidos, copiados.

“A história brasileira está repleta de exemplos de grandes mulheres. A presença feminina esteve presente em todos os momentos da história, mas pouco se fala ou foi relatado sobre elas. Por exemplo: a maioria das pessoas acha que a Princesa Isabel apenas assinou os papéis para a abolição da escravatura no País. Mas ela assumiu o papel de regente do Império do Brasil em três ocasiões e era realmente envolvida, militante da causa da abolição dos escravos. A história contemporânea também tem inúmeras grandes mulheres, mas elas não podem ser vistas como uma espécie rara de super mulheres. Elas estão por toda parte”, observa Lídia.

Na avaliação da professora, a luta das mulheres por reconhecimento e por direitos iguais aos dos homens tem uma característica ímpar, pois abriu espaço para as manifestações de várias outras “minorias” que não eram consideradas “sujeitos de direito”, como os negros e os homossexuais. a “conjuntura de visibilidade” - conforme denomina a pesquisadora - das mulheres mostrou que era possível conquistar direitos coletivos, mesmo por grupos que não tinham uma representação social ou política.

Conquistas

“As mulheres conseguiram avanços significativos desde o primeiro Código Civil brasileiro, de 1916. Naquela época, a mulher era efetivamente relegada ao título de segundo sexo, pois não votava (o direito a voto só foi conquistado em 1932, com o Código Eleitoral), não era cidadã e tinha que pedir permissão ao marido para tudo, inclusive para trabalhar. Em 1962, já com o grande número de mulheres no mercado de trabalho, foi editado o Estatuto da Mulher Casada, que em suma, legitimava que a mulher tinha a mesma importância do homem no lar. Um grande avanço foi obtido com a Constituição de 1988, que fez uma limpeza no Código de 1916 no que diz respeito a questões femininas”, pontua a professora.

Quatorze anos depois, o Novo Código Civil editado em 2002 veio garantir novas conquistas femininas. Uma delas é a herança deixada automaticamente à esposa em caso de morte do marido. Antes disso, os herdeiros diretos eram os filhos, deixando a mulher em terceiro lugar na linha sucessória. “Mas por outro lado, ainda existem absurdos. Recentemente, Barack Obama (presidente dos Estados Unidos) teve que assinar uma lei para que fosse colocada em prática uma situação já estabelecida, que é o pagamento de salários iguais para homens e mulheres trabalhando nas mesmas funções. Mas como as lutas que ainda precisam ser travadas podem se tornar uníssonas? Somente com a coletividade lutando junto”, adverte.

Força feminina

Para a pesquisadora, as mulheres sempre foram sujeitos históricos atuantes, seja como mães, administradoras, enfim, das mais diversas formas. “No lindíssimo trabalho de Sérgio Buarque de Holanda, ‘Raízes do Brasil’, de 1936, ele fala da característica ímpar das mulheres paulistas. Os bandeirantes tomaram a região de São Vicente e se embrenhavam nas matas à procura de índios, achando, mais tarde, ouro. Quem ficava administrando as fazendas, falando inclusive a chamada língua geral, que era a língua tupi, eram as mulheres deles. Então, ele mostra a importância do papel feminino nas famílias brasileiras. Mas na época não havia uma preocupação acadêmica em mostrar isso, pois em 1936 as mulheres praticamente acabavam de ter conquistado o direito ao voto. Ou seja, até então, elas não eram consideradas cidadãs.”

Nas universidade americanas, o tema “mulher” só começou a ser discutido em 1985, e já na década de 90, Lídia também testemunhou o preconceito no ambiente acadêmico quando começou a desenvolver estudos sobre as mulheres. “Muito ainda tem a ser feito no âmbito das conquistas das mulheres, pois ainda existe a relação de poder e submissão. Mas apenas com a coletividade lutando junto é que outras vitórias virão”, conclui Lídia.

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Grandes mulheres

Muitas mulheres que ocupam as páginas dos livros de história do Brasil aproveitaram, sabiamente, momentos de conflito para conquistar seus objetivos, se livrar da dominação masculina, realizar seus sonhos ou mesmo para viver um grande amor.

“São mulheres que se aproveitaram do espaço de guerra para sair daquele seu estado de dominação, de submissão, para construir seu futuro. Mas se você me perguntar se elas eram feministas, eu não posso afirmar isso. A mulher feminista tem uma visão política, um engajamento político. Elas lutam porque almejam alguma coisa mais concreta e mais duradoura no campo do direito. Enquanto que as lutas femininas - ou das mulheres - são lutas muitas vezes por aquilo que elas acreditam, como por exemplo os movimentos pelo fim da exploração sexual, dos maus tratos contra as mulheres”, define a pesquisadora Lídia Maria Vianna Possas. Solicitada para citar algumas mulheres de destaque na história do Brasil, ela mantém sua preocupação de não perpetuar estereótipos, prefere dizer que, ao apontar esses nomes, está apenas “tirando-os das margens e colocando mais luz a alguns expoentes femininos. Além dos nomes apontados a seguir, ela também destaca as mulheres dos bandeirantes (no período colonial).

ANITA GARIBALDI (1821-1849) se apaixonou pelo revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi durante a Revolução Farroupilha - também conhecida como Guerra dos Farrapos, que durou de 1835 a 1845. Durante a guerra, Giuseppe participa da tomada do porto de Laguna, na então província de Santa Catarina, onde conheceu Anita. Eles se apaixonaram, ficaram juntos e ela o acompanhou em combates ocorridos em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai (Montevidéu) e Itália. A união deles foi oficializada em 1842, quando se casaram em Montevidéu. Tiveram quatro filhos. Doente, ela morreu em 4 de agosto de 1849. Até hoje, a chamada “guerreira de dois mundos” é considerada uma das mulheres mais fortes e mais corajosas de sua época.

Militar brasileira, MARIA QUITÉRIA DE JESUS (1792-1853) foi uma heroína da Guerra da independência. Considerada a Joana D’Arc brasileira, é a patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Ela estava noiva quando, entre 1821 e 1822, começaram na província da Bahia as agitações contra o domínio de Portugal. Como seu pai (Gonçalo Alves de Almeida) não teve nenhum filho homem, Quitéria pediu autorização a ele para se alistar. Como o pedido foi negado, ela fugiu, se vestiu com trajes masculinos e se alistou com o nome de Medeiros, no Regimento de Artilharia. Em 2 de julho de 1823, quando o Exército Libertador entrou em Salvador, Maria Quitéria foi saudada e homenageada pela população em festa. Perdoada pelo pai, casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, seu antigo namorado, com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Mais tarde, ficou viúva e morreu em Salvador aos 61 anos, no anonimato.

PRINCESA ISABEL (1846-1921) foi regente do Império do Brasil por três ocasiões na qualidade de herdeira de seu pai, imperador D. Pedro II, e da imperatriz Dona Teresa Cristina. Foi a terceira chefe de Estado brasileira após sua avó, Leopoldina, e sua trisavó, Dona Maria I. Ficou conhecida como “Princesa Redentora” por ter abolido a escravidão no Brasil. Também foi a primeira senadora do País, cargo a que tinha direito como herdeira do trono a partir dos 25 anos de idade. Liberal, a princesa se uniu aos partidários da abolição da escravidão. No dia 13 de maio de 1988, ela assinou a Lei Áurea.

BERTHA LUTZ (1894-1976), filha de Adolfo Lutz (médico e cientista brasileiro, pioneiro na área de epidemiologia e na pesquisa de doenças infecciosas) e zoóloga por profissão, foi uma das pioneiras do feminismo no Brasil. Em 1922, fundou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, após ter representado o Brasil na Liga das Mulheres Eleitoras, realizada nos Estados Unidos. Após assumir mandato como deputada federal em 1936, teve como suas principais bandeiras de luta a realização de mudanças na legislação trabalhista com relação ao trabalho feminino e infantil, além de igualdade salarial.

TARSILA DO AMARAL (1886-1973) foi a pintora mais representativa da primeira fase do movimento modernista brasileiro, ao lado de Anita Malfatti. Em 1928, com seu quadro “Abaporu”, inaugurou o movimento antropofágico nas artes plásticas. Em 1922, após retornar da França, passou a compor o chamado Grupo dos Cinco, que defendia as idéias da Semana de Arte e tomou a frente do movimento modernista. Em 1926, casou-se com Oswald de Andrade, de quem se separou em 1930.

PAGU (1910-1962), cujo nome de batismo é Patrícia Rehder Galvão, foi jornalista, escritora e militante comunista de grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922. Era uma mulher avançada para os padrões da época. Aos 18 anos, integrou-se ao movimento antropofágico sob a influência de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade - com quem acaba se casando em 1930. O casal torna-se militante do Partido Comunista e se separa em 1935. Ao participar de uma greve de estivadores em Santos, Pagu é presa. Em 1935 ela é presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa. De volta ao Brasil, retoma a atividade jornalística, mas é novamente presa e torturada, ficando cinco anos na cadeia. Ao sair da prisão, rompe com o Partido Comunista e passa a defender o socialismo.

MARIA LACERDA DE MOURA (1887-1945) foi uma anarquista individualista brasileira que ficou famosa por seus escritos feministas. Escreveu inúmeros artigos e livros criticando a moral sexual burguesa, denunciando a opressão das mulheres, em especial as das camadas mais pobres. Em 1920, fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que combateria a favor do sufrágio feminino. Em 1921 tornou-se uma ativa colaboradora da imprensa operária. Entre os temas abordados pela escritora estão educação sexual dos jovens, virgindade, amor livre, direito ao prazer sexual, divórcio, maternidade consciente e prostituição, assuntos considerados tabu naquela época. Em seu livro “Religião do amor e da beleza”, defendeu o amor livre.

CARMEN MIRANDA (1909-1955) foi cantora e atriz. Sua carreira artística foi desenvolvida no Brasil e nos Estados Unidos entre 1930 e 1950, quando trabalhou no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão. Chegou a receber o maior salário até então pago a uma mulher nos EUA. Foi considerada precursora do tropicalismo, movimento cultural brasileiro surgido no final da década de 50. Ela estreou sua carreira nos EUA em 1939, com o espetáculo musical “Streets of Paris”, quando já era famosa no Brasil. Quando retornou ao País em 1940, foi ovacionada pelo público. Entretanto, sofreu com as críticas de outros tantos, de que ela havia se tornado “americanizada” e esquecido do Brasil. De volta aos EUA, gravou a marca de seus sapatos e mãos ca Calçada da Fama do Teatro Chinês de Los Angeles. Entre 1942 e 1953, atuou em 13 filmes em Hollywood.

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