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Caingangues ainda lutam para garantir sobrevivência

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

“Hoje à tarde, irei a uma aldeia de índios.” Algumas crianças que estão por perto ouvem a conversa e ficam boquiabertas - uma delas chega a soltar um “Nossa!”. Quando meu avô era jovem e trabalhava na lavoura, costumava usar um arado puxado por gado para preparar a terra. Mais tarde, meu pai usaria um trator. Atualmente, confesso que ando meio desatualizado quanto às inovações criadas pela indústria de máquinas agrícolas para facilitar a vida do homem do campo.

Só sei que nada mais é como antigamente. Se a vida dos “caras-pálidas” mudou tanto nos últimos tempos, por que a dos índios continuaria sendo exatamente como era no início do século 20?

Localizada no município de Arco-Íris, a cerca de 20 quilômetros do perímetro urbano de Tupã, a aldeia “Índia Vanuíre” mais parece uma vila rural. Casas de alvenaria, antenas de TV, carros nas garagens, cercas de arame por todos os lados. São 205 habitantes, das etnias caingangue, krenak, terena, funiô e aticum, distribuídos em 60 famílias e espalhados por uma área de 708 hectares.

O lugar tem escola, posto de saúde, salão para festas e duas igrejas pentecostais - uma da Assembléia de Deus e outra da Congregação Cristã no Brasil. Metade dos moradores se diz católica e a outra, evangélica, inclusive a família do cacique caingangue, Irineu Cotuí.

“Antigamente, eu vivia perdido e minha vida não tinha sentido. Certo dia, conheci a palavra de Deus e passei a enxergar o que era realmente a felicidade”, afirma, com uma Bíblia nas mãos. Ele recebe a reportagem em sua casa trajando roupas simples de agricultor: uma camisa velha, uma calça remendada e um grande e surrado chapéu de palha. Em nada lembra seus ancestrais guerreiros.

“Vocês fabricam flechas, hoje em dia?”, pergunto.

“Para quê? Não tem mais necessidade”, diz Cotuí, que é descendente de uma irmã de Vanuíre, índia falecida em 1918, considerada a responsável pela pacificação dos nativos que viviam em pé de guerra com os brancos.

Inicialmente, os caingangues demonstram certa desconfiança em relação à minha presença e a do repórter-fotográfico Éder Azevedo. Antes de conversar com eles, pergunto ao chefe do posto local da Fundação Nacional do Índio (Funai), Luís Gonzaga de Almeida Santos, quais os principais problemas existentes na aldeia.

“Acho que é melhor você perguntar diretamente aos índios. Eles saberão dizer com mais detalhes”, diz o chefe, que costuma ser chamado de “papaizão” pelos caingangues. Resolvo, então, questionar Cotuí - que está há duas décadas no “cargo” de cacique - a respeito das carências que existem na aldeia.

“Que problema? Aqui não tem problema nenhum. Os velhinhos estão todos aposentados, não falta nada para ninguém”, diz, voltando os olhos em direção ao chão. Embora Luís Gonzaga mantenha uma relação amistosa com os índios, eles aparentam não se sentir muito à vontade para fazer críticas com ele por perto.

A primeira reclamação só surge depois que pergunto a respeito da questão do preconceito. “Quando as crianças daqui vão à cidade para estudar, o povo de lá as trata com diferença. Dizem que são selvagens”, afirma a esposa de Cotuí, Ivani Barbosa, 46 anos.

Ela diz que, por conta do preconceito, muitos pais não querem mais que os filhos se desloquem até a zona urbana para ir à escola. “Além disso, tem esse problema das drogas, sabe? Parece que, na cidade, a coisa está meio perdida. Tenho sobrinhos e netos (uma menina de 3 anos, chamada Giovana) e não quero que nada de mal aconteça a eles. Se bem que a gente tem ouvido falar umas coisas estranhas por aqui...”

“Será que na sua casa tem café?”, pergunta Luís Gonzaga à aposentada Ana Barbosa, idade desconhecida, tia de Ivani.

“Xi! O homem até saiu...”, diz a aposentada, rindo.

“Você perguntou dos problemas, né? Já que é para falar, vamos lá: a polícia já andou sondando sobre esse negócio de drogas aqui na aldeia, mas ninguém sabe quem é que está envolvido com isso”, confirma Ivani, que trabalha como professora na escola local.

Mais tarde, Luís Gonzaga confirma os rumores, mas garante que os moradores da aldeia não têm nada a ver com as suspeitas. “Eles têm amigos na cidade, e alguns estão envolvidos com esse negócio. Até onde eu sei, ninguém daqui mexe com drogas”, afirma.

Nos cinco minutos em que o chefe do posto esteve ausente, os caingangues reclamaram do tamanho dos lotes destinados a cada uma das famílias. “Dois alqueires é muito pouco para alguém sobreviver”, reclama Ivani.

Outra queixa que eles fazem é sobre o trator. “Vive quebrando”, afirma o cacique. A Funai mantém à disposição dos índios um trator Massey Ferguson fabricado em 1985. Ultimamente, quatro famílias conseguiram adquirir maquinário próprio graças aos recursos do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf).

Este ano, Cotuí obteve R$ 4.000,00 de custeio junto ao programa mantido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Não comprou trator, mas sim uma carroça e uma égua. Em seu lote, cultiva mandioca (costuma colher 15 toneladas ao ano) e cria sete cabeças de gado. Ele ainda é responsável por cuidar do manejo das 380 reses pertencentes à comunidade e por planejar o trabalho a ser realizado na aldeia.

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