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Violências e banalização do mal

André Luís Fassa Garcia e Leonides da Silva Justiniano
| Tempo de leitura: 3 min

Alguns momentos são particularmente importantes para uma reflexão: uma pausa para considerar os acontecimentos e os fatores que os teriam produzido. Nem sempre é um caminho fácil; nem sempre as descobertas são alentadoras; nem sempre as implicações são agradáveis.

Não é fácil discursar sobre o Mal, com maiúscula, sobretudo pelo seu caráter abstrato, genérico. É mais fácil apontar os males particulares com os quais nos confrontamos no cotidiano. Esses males, porém, muitas vezes só são percebidos como tais pela sua contraposição aos bens, às coisas ou circunstâncias boas, agradáveis.

Um agravante na apreciação do Mal se dá quando as pessoas, pela constante exposição e suportação das múltiplas manifestações dos males, já não se tornam capazes de sua identificação – ou resistência. Humanamente falando, pode-se referir a aquilo que se entende por violência (apesar de esse ser um conceito que mereça muita discussão, também) como a expressão do Mal, por excelência. São muitas as manifestações de violência. É imensa a dimensão do Mal.

É lugar comum afirmar que se está a viver em um mundo violento. É mais raro, não obstante, ouvir que se está a viver em um mundo invadido - e subjugado -, em grande parte, pelo Mal. Apesar desse silêncio eloquente, Hannah Arendt deixou uma reflexão e um alerta em seu livro sobre o carrasco nazista Eichmann, cujo subtítulo aponta para a “banalidade do mal”. Esse é o ponto.

Mal, violência... Mais que discutir suas manifestações, importa discutir as causas de essas manifestações não causarem mais tanto impacto ou reflexão. A explicação talvez esteja, justamente, em sua banalização, na banalização do Mal - afirmado em toda a sua extensão.

Paradoxalmente, a banalização do Mal consiste em operar o “desaparecimento” desse mesmo Mal: as pessoas, de tanto serem apresentadas, confrontadas com inúmeras e initerruptas expressões do Mal passam a não ser mais capazes de considerar o “comum” como “excepcional”. Isso é consolidado pela teatralização do Mal: de vez em quando um caso de grande brutalidade assume grandes proporções na mídia e no imaginário popular. A esse grande caso sucede-se outro, igualmente escabroso, gerando terrores semelhantes... Esse processo, faz com que as maldades do dia a dia sejam incorporadas ao esquema mental, tornando-se mais um dos tantos componentes do mundo, da “realidade” – o Mal passa a ser apontado apenas naqueles casos excepcionais: o jovem que sequestra e mata a ex-namorada; o padrasto que estrupa e engravida a enteada de 09 anos; o tio que engravida a sobrinha de 11 anos; o homem que atira a sangue frio em um casal e, horas depois, volta para estrupar a jovem que jazia ferida; o pai que teria jogado a filha pela janela; a madrasta que teria matado, esquartejado e enterrado os enteados no quintal, com o auxílio do pai das crianças; assaltantes que matam crianças de 03 e 07 anos porque poderiam reconhecê-los; assaltantes que arrastam crianças presas ao carro... A lista é enorme.

Diante de casos tão aterradores, que é a “piedosa” mentira, que são uns palavrões jogados pela janela do carro, ou olhar de ódio e/ou inveja direcionado ao vizinho? Que é o antecipar-se a (ultrapassar, dizem, em vez de trapacear) outro na disputa por um lugar ao sol?

A banalização do Mal, retroalimentada pela espetacularização do Mal e da violência, em tempos de crise - sobretudo crise de valores - não assusta nem faz refletir como deveria. Ao contrário, dá audiência, lucro.

Os autores, André Luís Fassa Garcia e Leonides da Silva Justiniano, são professores do Centro Universitário de Lins

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