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Técnica divide avaliações

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Embora seja um procedimento reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o tratamento de eletrochoques - chamado, entre os especialistas, de eletroconvulsoterapia - costuma despertar polêmica entre profissionais da área de saúde mental.

Alguns consideram o método a melhor forma de se tratar transtornos psiquiátricos graves. Afirmam que a terapia é eficaz na redução dos sintomas em pacientes que sofrem de problemas mentais; que é segura e não causa danos ao cérebro; e que apresenta resultados mais rápidos que os medicamentos.

“Existe uma falsa crença em nossa sociedade de que a eletroconvulsoterapia causa lesões ao cérebro ou coisas do tipo. Muitas pessoas também associam erroneamente o método às formas de punição e tortura utilizadas na segunda metade do século passado”, diz o psiquiatra Ricardo Cezar Torresan, um dos responsáveis pelo serviço no Departamento de Neurologia, Psicologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. A instituição oferece a terapia de eletrochoques há mais de 30 anos.

Opinião parecida tem o psiquiatra Sérgio Paulo Rigonatti, responsável pelo setor de eletroconvulsoterapia do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo. “O único efeito colateral da técnica é a perda transitória de memória. O problema é que, muitas vezes, os familiares dos pacientes que sofrem de transtornos graves se deixam influenciar pela opinião de pessoas que julgam conhecer a ciência psiquiátrica. Depois que conhecem nosso serviço, porém, põem as idéias de tais pessoas em seu devido lugar”, afirma.

O setor de psiquiatria do HC costuma realizar, em média, 20 aplicações de eletroconvulsoterapia ao dia. Para Rigonatti, profissionais da área de saúde mental que criticam o método fazem isso “por falta de estudo”.

Não é bem assim que pensam os especialistas contrários à terapia de choques, caso do psiquiatra mineiro Alexandre Hampel. “Ao me posicionar contra a eletroconvulsoterapia, estou me posicionando também contra qualquer tipo de tratamento que enxergue na remissão dos sintomas seu êxito, focando o ‘bio’ e desconsiderando por completo o ‘psico’ e o ‘social’”, pontua.

“Lembro-me de um colega expondo sua angústia ao atender uma usuária que sofria de alucinações auditivas de múltiplas vozes, a maioria de conteúdo depreciativo e persecutório. Havia, porém, uma única voz, do pai já falecido, que costumava cantarolar em sua mente nos momentos de maior sofrimento. Ela teria dito mais ou menos assim: ‘Depois que comecei o tratamento (com os estímulos elétricos no cérebro), meu pai nunca mais cantou na minha cabeça. Mas as outras vozes...’”, recorda-se Hampel.

Outra que se diz contrária ao procedimento é a psicóloga Elisa Zaneratto, do Conselho Federal de Psicologia (CFP). “Antes de pensar em curar a pessoa, temos de nos preocupar em cuidar de gente. Temos de trabalhar, portanto, o indivíduo como um todo e não nos limitarmos a produzir um efeito em seu cérebro. Vivemos uma época em que as pessoas buscam soluções fáceis. Eu perguntaria aos psiquiatras: como vocês se sentiriam se tivessem de tomar eletrochoques?”, argumenta.

Na visão de Zaneratto, a terapia também acarreta em estigmas ao paciente. “Imagine só alguém admitir na rua que se submete a esse tipo de tratamento. A pessoa passa a se sentir mais doente e mais incapaz ainda”, pondera.

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