O desenvolvimento de Bauru é um assunto recorrente e não poderia estar fora dos debates nesses tempos de crise. Em tempos de crise, a situação piora porque, enquanto a população continua crescendo, o mercado de trabalho se retrai. Os que ficam prontos para começar a trabalhar se juntam aos que perdem o emprego, aumentando a procura por vagas que estão sendo cortadas. Se antes da crise já se falava que Bauru precisava atrair novas empresas, para criar mais empregos, agora mais ainda isso se justifica. Esse debate, entretanto, traz alguns equívocos e uma certa ingenuidade. Um equívoco é pensar que Bauru precisa de empresas de grande porte, que empreguem milhares de pessoas. Empresas grandes, embora criem muitos empregos diretos e indiretos, das que passam a viver em sua dependência, como fornecedores e prestadores de serviços, quando entram em crise provocam um estrago maior. Vejam o caso da Embraer, dispensando 4.200 empregados só no primeiro pacote. E quantos indiretos irão junto? Isso já ocorreu em outra ocasião, causando grande abalo em São José dos Campos. E não precisa ser tão grande, depende do tamanho da cidade. Duartina vive momento difícil com o fechamento de tradicional fiação de seda, desempregando 160 pessoas. Portanto, não é de se lamentar que Bauru não possua essas grandes empresas.
Também não é interessante o município dedicar-se só a um setor da atividade econômica. Aquele ufanismo de dizer “capital disto ou daquilo” pode transformar-se num grande problema. Vejam os apuros de Franca e Jaú, as capitais do calçado, em época de crise. Os municípios que surgiram e cresceram com o café viraram “cidades mortas” com a grande crise de 1929. Viver em função de um único ramo de atividade industrial, pecuário ou de monocultura agrícola é um risco permanente. Bauru, município relativamente pequeno, tornou-se a maior cidade do centro-oeste de São Paulo graças à sua economia diversificada, com algumas empresas com 500 ou mais empregados, mas com predominância de empresas médias e pequenas. Tem boa participação da agropecuária, também diversificada. Sempre teve bom comércio e boa cota de funcionários públicos. Não teve surtos de crescimento, a não ser no seu início, com as ferrovias, mas também não passou por estagnação ou crises.
Além dos equívocos quanto ao tamanho das empresas e aos ramos de atividade, é ingênuo pensar que empresas venham para cá porque o prefeito foi visitar os investidores ou fez uma bonita campanha de marketing. Qualquer empresa, hoje, sabe como pesquisar a melhor localização para se instalar. Fazer folhetos ou propaganda de boa localização da cidade, com transportes e escolas, ajudam, mas são coisas de pouca eficácia. A melhor ou a pior divulgação da cidade é aquela feita pelas empresas que já estão estabelecidas aqui. Como elas são tratadas pelo poder público local? Que facilidades e dificuldades elas estão tendo? Isso as pesquisas de localização, tecnicamente orientadas, vão dizer. Incluem-se aqui os contatos dos empresários e executivos nos eventos como feiras, congressos, reuniões classistas e mesmo em contatos ocasionais.
O poder público local deve continuar prospectando novas empresas, mas antes tem que cuidar bem do que já existe. O que ainda precisa ser feito no Distrito Industrial I, que continua com problemas depois de mais de 30 anos? E nos mais novos, II e III? Água, esgoto, energia, asfalto e legalização da propriedade? E fora dos distritos, para empresas não industriais? E a morosidade na liberação dos papéis necessários ao início e regularização do funcionamento? Como reagiria um empresário, recebido com honras nos gabinetes, ao visitar esses locais e tomar conhecimento dos problemas que os que lá viveram ou estão vivendo? Cuidar bem das que já estão dando emprego e pagando impostos é o caminho para que elas cresçam e atraiam outras e assim permitam que Bauru se desenvolva mais, não se esquecendo que o desenvolvimento deve ser sustentável e não predatório. Como medida complementar, para facilitar as pesquisas das empresas, a prefeitura poderia propor convênio com a ITE para desenvolver o Data-ITE, um banco de dados criado em 1998 com o objetivo de concentrar as informações mais importantes sobre Bauru, o que ainda é muito difícil nos dias de hoje. Está temporariamente parado, o que é uma pena e faz muita falta.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru