No Brasil a insegurança coletiva causada pela violência urbana e a, ainda, péssima distribuição de renda são conseqüências amargas de um sistema educacional falho, da malversação do erário público e da impunidade que persistem. A corrupção e o uso indevido do poder, aliados da excessiva burocracia, deixam um traço forte no sistema político-econômico brasileiro que tem alijado gerações. O “jeitinho”, na maioria das vezes, iniciado nas relações familiares quando a criança, usando seus poderes de persuasão, consegue transformar um “não” de seus pais, em um “talvez”, é outra péssima característica da nossa cultura. Por outro lado, representa o modo pelo qual “cidadãos” lidam com um sistema legal que consegue transformar a vida de qualquer um em uma pista de obstáculos. Lidar com uma infra-estrutura deficitária, com o trafego intenso e o colapso no sistema de saúde, fazem com que se viva para o dia-a-dia e contribuem para uma visão negativa do futuro. Existe um ceticismo frente às mudanças, acompanhado por sentimentos de fatalismo e imobilismo que explicam a dificuldade em planejar para o longo prazo e a tendência de transferir esperanças para o futuro.
Esta incapacidade do brasileiro se organizar é, em parte, resultado do processo de colonização, através das tentativas dos portugueses em separar as diferentes raças e tribos para então governar. A falta de coesão e a ausência de ordem são características herdadas que se prolongaram com a cumplicidade do Estado. No entanto, o planejamento é fator primordial para o bem-estar na aposentadoria. Esse bem-estar varia não apenas em função da história individual e do pano de fundo cultural, mas em relação à qualidade de vida coletiva do país e da cidade onde se vive, tanto no que diz respeito à economia, quanto aos indicadores sócio-ambientais, estruturais e políticos. Grande parte das pessoas não tem planos sobre o que gostariam de fazer na aposentadoria ou que tipo de atividade, seja de trabalho ou de lazer, gostariam de desenvolver. Pode haver muita euforia quando relatam que realizarão diversos projetos, mas poucos saberão defini-los, estabelecer metas e como se dará seu desenvolvimento.
Por certo, os indivíduos não mudam facilmente seus hábitos. Pelo contrário, alguns costumes, rotinas e manias podem estar tão enraizados que não deixam espaço para a experimentação de novas atividades. Administrar o tempo livre pode requerer uma nova aprendizagem e capacidade de adaptação. A preparação para a aposentadoria deveria fazer parte de um programa que estimulasse o planejamento para o futuro, discutindo formas e estratégias de como lidar com as perdas, bem como valorizar os ganhos, a manutenção de interesses, a recuperação de antigos projetos ou a elaboração de um novo script de vida.
Com o fenômeno do envelhecimento da população, o Brasil e as empresas precisam estimular os laços entre gerações e os benefícios que uma pode dar à outra, mesmo porque a economia está muito mais voltada para o conhecimento do que para a força física. Existem conhecimentos e habilidades que demoram a serem absorvidos e, mesmo após um longo aprendizado pelos mais jovens, dificilmente esta experiência acumulada pelos mais velhos será substituída. Mas, infelizmente, ano após ano, a aposentadoria condena os nossos mais valiosos recursos humanos a um estado de estagnação.
Por outro lado, comprovou-se no Japão e nos Estados Unidos, que o trabalho remunerado na aposentadoria, balanceado com outras atividades, mantém as pessoas ativas e saudáveis, ao mesmo tempo em que complementa a renda e amplia os relacionamentos. O efeito da continuidade na participação social é notado na redução das internações hospitalares e nas despesas médicas do Governo com os idosos, o que já é grande economia. Muitos sentem uma implacável sensação de insatisfação em dedicar seus dias ao lazer, porque o homem foi criado para ser útil, disseminar a verdade e a virtude e esta missão dura a vida inteira. Se fôssemos avaliar a vida exclusivamente pela componente material, então veríamos a debilidade física da velhice como uma desvantagem. Mas, o homem é um ser cuja verdadeira riqueza é medida pelos ganhos intelectuais, emocionais e espirituais de sua alma que, ao contrário do corpo, nunca envelhece; apenas se desenvolve. Reconhecer a proeminência da alma intemporal; esta é a chave para a compreensão do processo de envelhecimento e a chave com a qual abrimos a porta da oportunidade em nossos anos crepusculares.
A aposentadoria só será feliz quando reconhecermos que a verdadeira felicidade acontece quando contribuímos criativamente para o nosso mundo. Por conseqüência, o estado de enfraquecimento físico da velhice não é uma condenação à inatividade, mas um desafio para encontrar novos - e superiores - meios de realização.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp