O modelo brasileiro de transporte é individual e mecânico, ou seja, estimula que todos os brasileiros tenham seu próprio veículo. Para muitos ambientalistas e especialistas em tráfego, esta opção é um equívoco. Archimedes Raia Júnior, engenheiro de trânsito, é um deles.
“Acho um equívoco enorme por parte das políticas do governo federal que sejam incentivados sempre mais automóveis e motocicletas com a desculpa de que isso gera emprego. Afinal, ao mesmo tempo, gera deseconomias urbanas extraordinárias. O governo arrecada muito impostos com as indústrias automobilísticas, mas os custos sociais são elevadíssimos. O governo federal arrecada impostos e, via de regra, os municípios socializam o prejuízo. Os municípios ficam reféns dessa política equivocada”, explica Raia Júnior.
A própria Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) reconhece as dificuldades. “Hoje você tem facilidade em termos de financiamento que fazem com que a pessoa invista numa moto e num carro e saia do transporte coletivo. O incentivo é muito grande e isso acaba não só tirando as pessoas do transporte coletivo, como aumentando o congestionamento nas cidades. O Brasil está na contramão mesmo. Nós sabemos que a tendência mundial é valorizar os transportes alternativos: bicicleta, a pé e transporte público”, diz o diretor de sistema viário Ricardo Aurélio Pignolli.
Raia Júnior defende exatamente esta alternativa: a opção pelo transporte coletivo e não motorizado. “Temos que quebrar esse paradigma: não se resolve o problema do trânsito com obras viárias. Obras são necessárias porque há muitos veículos circulando e, ou se toma providências, ou pára tudo. A população espontaneamente não fará a opção pelo transporte público. É preciso que o poder público, defendendo o interesse coletivo, tome as providências necessárias. Alguns dos remédios são amargos e doloridos, mas são necessários”, defende.
Além da melhora no trânsito, muitas questões relativas ao meio ambiente teriam melhora significativa. Ivy Wiens, secretária executiva do Instituto Ambiental Vidágua, ressalta que haveria menos emissão de gases poluentes, menos utilização de matéria-prima e menos resíduos sólidos, líquidos e gasosos.
Providências
Priorizar o sistema público de transporte significa mudar todo um sistema de administração voltado aos veículos individuais, o que é complicado. No entanto, muitas medidas poderiam incentivar a opção dos munícipes por outros tipos de locomoção.
O deslocamento a pé poderia ser estimulado com o plantio de árvores nas calçadas e uma melhor sincronia dos semáforos de pedestres em vias com diversas possibilidades de conversão, como as perpendiculares à avenida Duque de Caxias. Os ciclistas ficariam mais seguros se houvesse ciclovias. O transporte coletivo também poderia ser melhorado com uma faixa exclusiva para ônibus e a adoção de veículos articulados.
Ricardo Aurélio Pignolli, diretor de sistema viário da Emdurb, diz que há políticas no sentido de melhorar o transporte público, mas que essa não é a prioridade no momento. “O transporte coletivo tem que ser atrativo de alguma maneira. Temos uma equipe técnica pensando o assunto, inclusive estamos criando um sistema de comunicação com o usuário, metas de atendimento e índices de reclamação. Primeiro vamos nos situar e monitorar o sistema de transporte coletivo. Depois vamos poder elencar o que é necessário e o que pode ser feito para trazer de volta o usuário”, afirma.
Exemplos mundiais
Raia Júnior explica que países como os Estados Unidos já viveram problemas graves de trânsito na década de 70 e que a experiência incentivou a criação de alternativas em vários lugares do mundo.
“Em Los Angeles, onde há mais de um veículo por pessoa, há um investimento pesado em transporte coletivo de qualidade. Outro exemplo é a cidade de Bogotá, que investiu num sistema de massa chamado Transmilenium, que tem ótima qualidade e capacidade. Em Seul, uma grande via expressa, como as marginais Pinheiros ou Tietê, foi transformada em parque linear com transporte coletivo circulando por ela. Onde teríamos no Brasil uma pessoa com coragem de fazer uma obra desta: tirar do automóvel, dar para o transporte coletivo e criar parques para a população?”, questiona.
Ivy Wiens, secretária executiva do Instituto Ambiental Vidágua, conta uma experiência pessoal neste sentido. “Morei na Espanha em 1998 e trabalhava numa cidade distante uma hora de onde morava. Todos os dias eu pegava um trem, moderno, barato, rápido, que me dava segurança e conforto. Se tivéssemos uma opção como essa por aqui, certamente faríamos o mesmo”, diz.