Vivemos dias impregnados de problemas, os mais difíceis possíveis, dentre os quais se podem citar alguns, de grande efeito dentro da economia, política e sociologia dos seres humanos: seqüestros, roubos, prostituição, desemprego, menores de rua, desigualdades sociais, mendicância e alguns outros de complicada solução. Mas por que isso tudo está crescendo cada dia mais? Essas e outras perguntas fazem parte das inquietações que deixam os cientistas, sociólogos, economistas e religiosos estupefatos quanto a essa problemática, que torna a sociedade apavorada, devido à insegurança que as famílias enfrentam nos dias de hoje, cujos exemplos e correições não têm dado conta de uma situação tão difícil que se vive na atualidade.
Sabe, acho que, acima de tudo, precisamos verificar como andam os nossos corações, fazer um exame interior da nossa generosidade, da nossa complacência, do nosso amor fraterno. Li, no sítio “Portal da Família”, um artigo escrito por Mercedes Malavé Gonzáles, que, dentre outras coisas, indagava: - como é possível fazer crescer diariamente o coração? De que se alimenta ele? Sabemos que a inteligência cresce mediante o conhecimento e que a vontade se fortalece graças à repetição de atos bons, praticados com liberdade. O coração cresce quando ama... Mas em que consiste exatamente o amor, o ato de amar? Se nos concentrarmos na dimensão interior do ato de amar, poderemos dizer, antes de tudo, que amar é recordar. O amor interior se exercita mediante um ato da memória. De fato, a palavra recordar vem do latim “re-cordaris” e significa literalmente “fazer presença de novo no coração”, ter continuamente presente aquilo que amamos.
Esta semana, todos nós vimos, pelo JC, um exemplo de amor verdadeiro e fecundo... o verdadeiro “re-cordaris”: Eliana Ribeiro, com seu invejável altruísmo, reencontrou o seu colega de faculdade de medicina veterinária, Marcelo de Almeida, e trouxe a ele a mão amiga, o carinho tão necessário para fazê-lo reconquistar a confiança de viver e de se salvar. Certamente, o mundo precisa desses exemplos... Também li, neste noticiário, que Marcelo “Padecendo de tudo extrema inópia”, como assim dizia Camões em Os Lusíadas (V, 6), ainda encontrava forças para escrever seu “diário” onde, certamente, narra o seu padecimento junto às calçadas, à bebida e à insensibilidade urbana... tudo enquanto “as estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela dor suprema de que eram as únicas testemunhas.” (Trindade Coelho, Os Meus Amores, p. 202). Certamente, Marcelo estava ansioso em dar-nos a sabedoria que as agruras da fome e da sede lhe trouxeram. E recordo-me que “Em Espanha vi mendigos que davam esmola a outros pordioseros situados em graus mais baixos na escala da indigência.” (Fidelino de Figueiredo, Entre Dois Universos, p. 29.). Mas, felizmente, ainda existem Elianas para reencontrar os Marcelos. E existem reportagens que podem salvar vidas... “E o mendigo da aldeia, o velho cego, / Sobre o duro grabato, em choça humilde, / Achou a paz.” (Alexandre Herculano, Poesias, p. 116.).
O autor, Reinaldo A. Aleixo, é procurador do município de Pederneiras, Advogado e Professor da ITE