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Entrevista da semana: EDILENE BENEDITA DE SOUSA

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

‘Viver não basta, é preciso ajudar a viver melhor’

Edilene Benedita de Sousa é uma estudante de letras de origem simples, com pai e mãe semi-analfabetos, mas que se diferencia da maioria dos jovens da sua idade pela necessidade que sente, desde os 13 anos, em ajudar pessoas carentes.

Aos 24, ela já tem mais de dez anos de experiência como voluntária no trabalho social. Longe dos projetos que realiza em benefício às pessoas carentes da cidade e do campo, não se sente feliz ou realizada como ser humano.

Acreditar em mudanças sociais e trabalhar por essa causa tem sido uma das paixões e propósitos da vida da moça, que ainda encontra tempo para a família, estudo e amigos.

Inimiga do comodismo e com a espiritualidade elevada, a futura professora afirma que o brilho da esperança no olhar dos jovens marginalizados que ela ajuda é a maior recompensa pelo seu trabalho. Leia os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade.

JC - Qual foi seu primeiro trabalho social? Edilene - Foi em 1998, quando conheci o trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e foi através deles que pude conhecer, também, a Pastoral da Juventude da Paróquia Santa Luzia, espaço onde mais tive oportunidade de desenvolver trabalhos sociais. Atuei no projeto São Francisco, que era voltado para a população da favela do Jardim Flórida. Eu tinha uns 13 anos quando me engajei no voluntariado social e não parei mais.

JC - O que foi o projeto São Francisco? Edilene – A idéia era arborizar aquela região e levar as pessoas que moravam ali para um bairro urbanizado. Lá existe uma encosta onde passa o Córrego Barreirinho, totalmente poluído. Além de devolver a vida ao córrego, que tem umas quatro ou cinco nascentes, queríamos dar condições de saneamento básico e saúde para o pessoal dali, que vivia sempre doente. O intuito maior era fazer uma área verde para a população das proximidades, ou seja, do bairro Nova Flórida, Eldorado, Santa Luzia, Mary Dota, entre outros. Esse foi o primeiro grande projeto que participei, mas não deu muito certo, infelizmente.

JC – Quais foram os obstáculos enfrentados? Edilene – O projeto estava caminhando bem. Mas começamos perceber um certo interesse político-partidário dentro do grupo. O que aconteceu foi que a Pastoral buscou auxílio fora da paróquia e parte dessas pessoas que se propuseram a contribuir passaram a usar o projeto para promoção pessoal e política. Então, eu e mais algumas pessoas nos afastamos por não acreditar mais no ideal do projeto, que se direcionava para caminhos que estavam nos desagradando. Porém, isso não me desanimou e continuo firme e forte com os trabalhos sociais.

JC - Como é seu trabalho com o MST? Edilene - Embora a mídia divulgue muita coisa ruim sobre o MST, há, na verdade, plenitude e justiça na maioria dos envolvidos no movimento. Sou secretária da juventude do Partido dos Trabalhadores (PT) em Bauru, mas luto pelo social, independente de política de partido. Nosso grupo é para fundamentar os ideais sociais. O trabalho nos assentamentos é feito para levar profissionais da saúde e educação até os trabalhadores rurais. Busco ser uma ponte para as informações chegarem, da cidade, para o roça, contando sempre com a ajuda de voluntários da área da saúde, educação, etc.

JC -Tem outros projetos atualmente? Edilene -Tenho muitos projetos. Posso citar o trabalho no Instituto Acesso Popular, que é um centro de educação, cultura e política. Faço parte da Pastoral da Juventude da Paróquia de Santa Luzia e sou a representante da Arquidiocese de Botucatu na coordenação Estadual da Pastoral da Juventude. Ainda ajudo os trabalhadores do MST da região e participo, ativamente, dos movimentos estudantis da Universidade do Sagrado Coração (USC), onde faço faculdade de letras.

JC - O que é o Instituto Acesso Popular? Edilene - Somos um grupo de, aproximadamente, 40 pessoas. A finalidade é oferecer projetos culturais para as comunidades carentes. Temos, por exemplo, um trabalho feito em cima do hip hop, com oficinas de dança e DJ. Estamos iniciando uma cooperativa de mulheres artesãs. Ainda é uma sementinha, mas a idéia do projeto é ensinar às camponesas o trabalho com a matéria-prima da natureza, valorizando o artesanato e a cultura da terra, além de ser uma forma de geração de renda.

JC - Onde os projetos são colocados em prática? Edilene - Algumas coisas acontecem na sede do instituto mesmo, que fica à rua Primeiro de Agosto, 9-50, e outras, nos próprios bairros. Contamos com a colaboração de pessoas que são mestres nos movimentos culturais e nos cursos que oferecemos. Todas essas pessoas são voluntárias e acreditam na possibilidade de melhoria de vida através da dança, música e da cultura. Para manter o instituto, financeiramente, nós recebemos ajuda de sócios-colaboradores da própria comunidade, realizamos rifas, jantares, churrascos, vendemos livros e CDs. Vivemos com sufoco, mas conseguimos continuar na luta nesses mais de 3 anos de existência do instituto.

JC - Como os projetos são idealizados? Edilene - É uma coisa impressionante. Às vezes, saímos com um projeto para uma coisa e, depois, percebemos que aquilo não é o que as pessoas precisam. Então, temos que transformar tudo o que, a princípio, imaginávamos que ia dar certo. Resumindo, estudamos a realidade e a necessidade das pessoas das comunidade mais carentes da cidade. Levamos em consideração, entre outras coisas, o número de jovens, já que eles são os mais atingidos por problemas como a violência e o desemprego, por exemplo. Essa análise é feita em conjunto com os líderes comunitários e prioriza saber qual é o estilo de vida e os desejos reais da população, antes de traçarmos o perfil do projeto que será desenvolvido ali.

JC - Há resistência quanto a aceitação dos projetos pela comunidade? Edilene - Sim. Essas pessoas acabam sendo receosas porque tem muita gente que se aproveita do sofrimento delas para se promoverem politicamente, sem o interesse em transformar a vida delas realmente. Nosso intuito é dar condições para que essa parcela da população lute por suas vidas e acredite que pode batalhar por seus direitos.

JC - Há um trabalho de conscientização política? Edilene - Sim, tentamos passar a importância do voto para eles e o acreditar que mudanças são possíveis. Esse é um trabalho apartidário. O que é fundamental para nós, é o desenvolvimento e o crescimento dessas pessoas dentro da comunidade e como seres humanos.

JC - Quais são os frutos colhidos pelo instituto? Edilene - Hoje, são cerca de 300 pessoas atendidas pelo nosso trabalho, entre crianças, jovens, adultos e idosos. Vou citar um exemplo bonito: tivemos um menino em meu bairro, Parque dos Eucaliptos, que se formou na Academia do Barro Branco no ano passado. Ele estudou em um projeto de cursinho pré-vestibular que tínhamos e passou no vestibular, coisa que não é nada fácil. Para nós, isso é fruto bastante doce, mesmo sabendo que ainda temos muita coisa para fazer, percebemos que o trabalho dá resultados gratificantes.

JC - Atualmente, como é seu trabalho dentro da Pastoral da Juventude? Edilene - Esse movimento surgiu na Igreja Católica por volta de 1975, com a necessidade de um espaço para o trabalho com os jovens. Fui coordenadora por quatro anos da Pastoral da Juventude da Paróquia de Santa Luzia e, hoje, sou uma espécie de assessora. Esse ano vou me reunir em Porto Velho (RO), pela arquidiocese de Botucatu, com as lideranças da igreja. Iremos discutimos as linhas de ação da igreja ao longo do ano. Para 2009, a reunião tem como pauta questões ambientais como aquecimento global, poluição das águas, etc.

JC - Quais as abordagens da pastoral junto aos jovens? Edilene - Ajudamos nas descobertas profissionais, pessoais e a entender o porquê das coisas da vida. É um trabalho muito bom de vivência e está ligado aos movimentos sociais. Buscamos os jovens marginalizados. A idéia é fazer a igreja fora do espaço físico onde ocorrem as celebrações. Por exemplo, ficamos sabendo que uma creche está precisando de leite, então realizamos campanhas de doação. Colocamos esses jovens em contato com a sua realidade e a realidade da comunidade.

JC - O que é a religião para você? Edilene - É um suporte espiritual, um caminho que me dá pistas para chegar onde necessito. Deus é o ser maior, é a fonte de amor e beleza da vida.

JC - O que te levou, desde a adolescência, ao engajamento social? Edilene - Desde criança, quando ainda morava na roça, via meus pais ajudando as pessoas com o que podiam. Quando vim para Bauru, percebi que tudo aqui era diferente. Via as pessoas pedindo nas ruas, pegando papelão, e comecei a conversar com elas. Percebi que aquilo não era justo e que as pessoas merecem ter uma vida melhor, com mais oportunidades. Nas missas, eu ouvia muito sobre solidariedade e essa vontade de ajudar o próximo passou a ser uma paixão em minha vida. Enxerguei que eu precisar mais que simplesmente viver a minha vida. Preciso ajudar a quem precisa, fazer alguma coisa para diminuir o sofrimento humano.

JC - Qual é sua recompensa? Edilene - Saber que as pessoas estão vivendo melhor com o pouco que eu consigo fazer. Não me contento com o comodismo. Acredito que, se cada um fizer um pouquinho que seja, o sofrimento das pessoas pode diminuir sim.

JC - Por que decidiu cursar a faculdade de letras? Edilene - Acredito na educação como o caminho para as mudanças sociais e comportamentais. Me fascina estudar para passar esse conhecimento para meus futuros alunos. Faço estágio e percebo que lecionar não é nada fácil, mas sou apaixonada pela ensino. É com muita dificuldade que luto por meus sonhos, sempre apoiada por meus pais, que, apesar de humildes, sempre me apoiam e batalham pela vida. Minha família é minha fortaleza.

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