“Pode ficar tranqüilo! Isso aqui é como andar de bicicleta”, diz o treinador e adestrador de cavalos Vágner Simionato, 43 anos, considerado o maior vencedor de campeonatos oficiais da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM) em todos os tempos. O animal dispara no galope. Enquanto procuro um lugar onde me segurar, penso comigo mesmo: “A única diferença é que bicicleta não tem vontade própria; se a gente não pedalar, ela fica parada.”
Pela primeira vez na minha vida, tive a oportunidade de cavalgar para valer. Foi no sábado passado, no Recinto Mello Moraes, durante a 4.ª Etapa do 12.º Campeonato do Núcleo Bauruense de Quarto de Milha (NBQM).
Até então, eu havia montado um pangaré ou outro, mas nada que pudesse colocar minha integridade física em risco. Para falar a verdade, as experiências se resumiram a subir na sela, andar alguns metros e descer o mais depressa possível, dando graças aos céus por não ter sofrido uma queda.
Desta vez, porém, a coisa era séria. O objetivo era me tornar apto a participar da prova do tambor, uma das mais populares do torneio, na categoria amador principiante. Na sexta-feira de manhã, véspera da competição, vou ao recinto para tirar meu “brevê” de cavaleiro.
“Olha, para falar a verdade, está tudo errado. Se amanhã você aparecer aqui vestido desse jeito, não poderá nem entrar na pista”, adverte Vágner. Ele está coberto de razão. Onde já se viu um cavaleiro que se preze trajado de camiseta e tênis? Tudo bem que eu mereço um desconto, já que costumo passar grande parte de meus dias na zona urbana.
No dia da prova, teria de estar com botas no pé e camisa de manga comprida. Detalhe: as mangas deveriam estar abotoadas nos punhos, camisa enfiada nas calças e boné na cabeça. Pior é que nem bota eu tenho... “Sem estresse, esses detalhes são fáceis de se providenciar. O difícil vai ser aprender a montar”, pensei.
Suposição errada. Se a pessoa tiver disposição, pode aprender a cavalgar com grande desenvoltura, independentemente da idade. Nos torneios do NBQM e da ABQM, é comum encontrar participantes que começaram a montar quando ainda eram crianças.
Há também aqueles que se iniciaram depois de adultos, caso de Paola Daré, presidente do NBQM. Ela começou a competir aos 30 anos, influenciada pelo filho Eduardo, que hoje tem 15 anos. “Quando o Eduardo era criança, um amigo dele freqüentava a escolinha de montaria. Ele resolveu acompanhá-lo a uma aula e voltou apaixonado por esse mundo. Hoje, todo mundo na família compete nas provas”, garante.
Meu primeiro dia de treinamento foi com tênis nos pés. O cavalo escolhido para me carregar se chama Victory King, um quarto de milha de aproximadamente 12 anos de idade, que costuma ser usado nas provas das categorias infantis. “Ele é bem manso”, explica Paola.
Quando Victory King começa a trotar, sinto-me como se estivesse em uma máquina de lavar roupas. “Você precisa aprender a acompanhar o movimento do cavalo. Assim sofre menos”, aconselha Vágner.
Tentar até que tentei. Na pista de treinamento, não foi difícil decorar o trajeto da prova. Basicamente, teria de contornar três tambores e retornar ao ponto de partida, sem derrubar nenhum obstáculo.
Nos treinos, até que vou bem. Olho para trás e vejo os tambores em pé. A grande dificuldade era fazer o cavalo correr. Cada vez que ele parte no galope, parece que sou eu que o estou carregando no lombo, de tão cansado que eu ficava. “Esse é um esporte como outro qualquer. Exige preparo físico do competidor”, explica Paola.
Treino por quase uma hora e fico completamente esbaforido. “Acho que por hoje está bom. Não estou mais agüentando de cansaço.” À noite, quase não consigo dormir, de tantas dores que eu sentia nas pernas e nas costas - sinal de que, talvez, eu esteja longe de minha melhor forma física.