Articulistas

A mortadela é azul

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

De uma coisa estou convencido: jamais morreremos de tédio neste País. Pelo menos enquanto Lula for presidente. Todos os dias temos ingredientes à vontade para inventar um prato novo. Nem que seja à base de mortadela, anos atrás alimento-símbolo da pobreza nacional. Lula pousa para os fotógrafos brandindo um tarugo da Sadia, um embutido enorme e grosso: “é preciso ser cabra macho!” Diferente de outro presidente que proclamava ter “aquilo roxo”. Depois surgiu a revelação sobre os “brancos de olhos azuis”. Faltou acrescentar “e protestantes”. Segundo Lula, estes são os verdadeiros culpados pela marolinha brasileira e o tsunami mundial. É verdade que Lula se esqueceu dos banqueiros chineses, coreanos, japoneses e hindus, todos de olhos pretos. Ainda bem que o primeiro ministro britânico James Gordon Brown, o visitante ilustre ao qual Lula saudava, tem a íris escura, apesar de escocês. Antes de vir para o Brasil, Brown já havia sido alertado sobre o nosso folclórico presidente. Produto do calor dos trópicos. Fazemos questão de cultivar a ignorância e as jabuticabas. Justamente o desinteresse pelo saber e o agudo pragmatismo tropical é que levaram um metalúrgico à Presidência da República. Ele lá se mantém com níveis recordes de popularidade. Se houvesse ibope à época, com certeza nem D. Pedro I teria atingido tal performance, mesmo na semana seguinte à proclamação da independência.

Durante o Carnaval Lulinha paz e amor, de chapéu panamá e camisa florida atirava camisinhas para o povo, sem medo das admoestações da igreja que teima em condenar o instrumento de proteção contra bebês e doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo na África, onde a Aids é um flagelo que já matou 10 milhões de homens, mulheres e crianças.

A rigor Lula não deve desculpas a ninguém. Bobagem considerá-lo um neo-racista. Os ingleses até que gostaram e abriram manchete no vetusto “Times” sobre o blue-eyed, white people, do qual é fruto Elizabeth II. Deve muito mais desculpas o governo de São Paulo que editou e pagou um livro didático de geografia onde existem dois Paraguais. Por falta de um, dois para reivindicar revisão do acordo de Itaipu. Sumiram da apostila o Uruguai e o Equador. Este tipo de ignorância é que realmente preocupa, porque produzido por instituição que tem o dever de ensinar.

Nunca, na história deste País, tantos e tão emocionantes episódios se sucederam em tão pouco tempo. Tenho que produzir este artigo a toque de caixa porque minha mulher comprometeu-se em desligar o circuito de eletricidade de casa, por 1 hora, tempo em que devemos permanecer no escuro, sem tevê e internet, para protestar contra o “aquecimento global”.

Voltando à crise produzida pelos branquelos que mal conhecem o sol dos trópicos, é conveniente lembrar, tem causa instrumental no tal “subprime”, ou seja, ativos de risco emitidos para poderem financiar a casa própria nos Estados Unidos. Tantos foram os empréstimos distribuídos a incapazes de pagar, que a inadimplência gerou a crise sistêmica na qual estamos mergulhados. Aqui no Brasil não haverá este tipo de problema. Lula e sua estrela Dilma anunciaram um megapacote para a construção de 1 milhão de habitações populares, que vão consumir recursos de R$ 34 bilhões. “Minha casa, Minha vida”. Somente 50 reais por mês. Os mutuários da Cohab vão morrer de inveja. Principalmente os do Mary Dota que pagam três vezes mais do que isso e vão para o olho da rua, se atrasarem. No Plano Lula, de houver alguma dificuldade para pagar, não tem importância. As prestações vencidas ficam para melhores dias. Há ainda algumas dúvidas. A principal delas se refere aos prazos para início e fim da construção das casas. O próprio presidente faz questão de não se comprometer. Qualquer leigo no assunto é capaz de avaliar a impossibilidade de cumprir uma meta tão ousada num tempo tão exíguo. O histórico do PAC mostra que a burocracia, a incompetência e a corrupção são os grandes obstáculos para a execução destas obras. Mas, qualquer observador inocente concordará que se trata do maior e mais inteligente programa eleitoral jamais visto. Incluo-me no rol dos ingênuos. Também tinha dúvidas sobre as possibilidades eleitorais de dona Dilma Rousseff suceder Lula no Planalto, mesmo com o aquele rostinho recauchutado. Hoje, não tenho mais.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

Comentários

Comentários