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RH - na prática, a teoria é outra

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

É comum em administração, a prática não seguir totalmente a teoria. Joelmir Beting usou esse fato para título de seu livro “Na prática, a teoria é outra”, publicado com sucesso em 1973. Ele inicia perguntando quais anseios a humanidade gostaria de ver realizados até aquela data, partindo do início do século - 1900. São 15 questões. As cinco primeiras foram: a paz entre os povos; erradicar o analfabetismo, a miséria, a doença e a fome em todo o planeta; distribuir equitativamente os frutos da prosperidade; eliminar a inflação e as discriminações internacionais de comércio e criar um único dinheiro para o mundo inteiro. As dez seguintes: transportar um elefante a 1.000 km/hora; reproduzir eternamente e com perfeição a voz e imagem de uma pessoa falecida; transmitir instantaneamente, com som e imagem, um acontecimento num outro continente; trocar o coração doente de um homem vivo por um sadio de um homem morto; construir máquinas que memorizem e calculem bilhões de vezes mais rápido que o homem; tirar do petróleo sucedâneos para metais, vidro, tecido, papel, madeira e borracha; desenvolver um feixe de energia capaz de transmitir 500 mil ligações telefônicas simultâneas; produzir um frango de corte aos 58 dias com 2 quilos de ração para cada quilo de carne; fabricar um explosivo capaz de varrer a vida da face da Terra e colocar alguns homens valsando feito cisnes na superfície da Lua.

Diz que em 1900 as respostas talvez fossem que as cinco primeiras teriam solução adequada porque exigiriam apenas algumas doses de inteligência e racionalidade, com boas pitadas de bom-senso ou boa vontade. Quanto às outras dez, exigiriam procedimentos fantásticos e absurdos, que escapavam à capacidade do raciocínio humano. Pois bem, chegado 1973 todas as dez últimas tinham sido atendidas - avião supersônico, televisão, transplante de coração, computador, bomba atômica, homem na Lua etc. - enquanto as cinco consideradas possíveis continuavam desafiando os que se preocupam com o futuro da humanidade, sem realizar os avanços que o desenvolvimento da economia e das ciências permitiria.

Hoje, 36 anos depois, as dez desenvolveram-se ainda mais e as cinco primeiras, em termos globais, continuam como antes ou em situação pior. Vejamos a situação dos trabalhadores. A administração de recursos humanos, com as contribuições da psicologia, da sociologia, da antropologia e ciências afins, teve um grande desenvolvimento teórico e passou a ser a coqueluche da administração de empresas. De administração de pessoal, que julgaram ser expressão antiquada, mudou para administração de recursos humanos; desta para gestão de pessoas (gente não poderia ser considerada recurso) e ainda para gestão ou liderança de gente, pergunta-se: o que de fato mudou no relacionamento patrão/empregado? Chefe/subordinado? Sindicato/empresa? Com esses avanços teóricos, mudaram o sentimento e a consideração entre eles? Chamar os empregados de parceiros e colaboradores tornou o tratamento mais humano? As demissões de hoje são diferentes das de outros tempos?

Jack Welch, em sua página na revista Exame, responde a uma pergunta sobre o departamento de recursos humanos, contando a história de um demitido que recebeu a notícia numa sala de reuniões, através de uma consultora de recolocação. Embora, para muitos, isso seja um avanço, Welch recomenda aos gerentes de RH que o papel deles é “garantir que as pessoas sejam demitidas por seus chefes e não por estranhos. A demissão é sempre um evento brutal, não importa em que circunstâncias, mas receber a notícia de um estranho, contratado especialmente para isso, só piora as coisas”. Recomenda, também, que “cabe ao RH servir de árbitro nas questões envolvendo valores, para evitar acordos mais vantajosos para uns que para outros.” E, ainda, que o “RH tem como função amortecer o sofrimento. Nas horas que se seguem à demissão, as pessoas precisam de certo conforto e é papel do RH dar atenção a elas”. Está aí a teoria dita por alguém de grande fama. Que os gerentes de RH reflitam em até que ponto, na prática do seu dia a dia, a teoria é outra.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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