Baterista por vocação, Luiz Franco Thomaz, o Netinho, ícone da Jovem Guarda nos anos 1960 e 70 com a banda Os Incríveis - um dos grandes fenômenos musicais que surgiram no Brasil nas últimas cinco décadas - esteve em Bauru, no último sábado, para uma apresentação exclusiva da banda para os funcionários dos Correios, no Bauru Tênis Clube (BTC).
Durante a rápida passagem pela cidade, ele recebeu a reportagem do JC para uma conversa sobre passado, presente e futuro. Do passado, Netinho lembrou quando Os Incríveis (grupo que surgiu inicialmente com o nome The Clevers) não usavam microfone, quando era uma banda apenas instrumental, assim como muitas outras que faziam sucesso na época.
Ele conta que uma viagem para a Itália em 1964, ao lado da cantora e atriz italiana Rita Pavone, foi o que mudou o curso da história para a banda. “Nossa ida para a Itália, em 64, foi o que fez da gente o sucesso que somos até hoje”, admite.
Netinho assume que muitas das músicas que fizeram sucesso com Os Incríveis eram versões de músicas italianas adaptadas para o português. “A música ‘Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones’ é a versão em português de uma música italiana gravada por Gianni Morandi”, diz. Da mesma forma, “O Vagabundo”, mais um sucesso da banda, também era uma música italiana, assim como muitas outras.
Segundo Netinho, isso ocorria porque, na época, as músicas italianas faziam muito sucesso no Brasil e no mundo todo, e a gravadora obrigava a banda a gravá-las para pegar carona na boa aceitação do público. “Era a gravadora que impunha, não era coisa nossa. Nós éramos comandados por ela. Não tínhamos voz ativa. E isso na época que já fazíamos sucesso”, conta o baterista.
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Mudança de realidade
Segundo Netinho, era uma realidade bem diferente se comparada com o início da carreira. “Enquanto a banda era de garagem, éramos nós que decidíamos o rumo a tomar. Assim que assinamos o primeiro contrato, dançamos (risos). Já não éramos mais donos de nós mesmos”, comenta. Assim foi até que chegou o dia em que a gravadora, segundo Netinho, obrigou a banda a gravar “Eu Te Amo, Meu Brasil”. Começava ali o fim d’Os Incríveis. “Não que não quiséssemos gravar a música, porque não víamos nela nenhuma conotação política”, lembra. Mas alguns políticos passaram a usá-la como bandeira na época da ditadura.
Entre as “histórias malucas” vividas pelos integrantes da banda por causa dessa música, Netinho lembra do dia em que foi à casa de uma namorada e quase foi escurraçado pelo pai da moça.
“O irmão dela era líder estudantil e desapareceu. Apagaram o cara. Eu não sabia de nada. Então, cheguei na casa dela achando que estava cheio de moral (por causa do sucesso da banda) e o pai dela quase me mata. Na cabeça dele, eu fazia parte do governo por causa da música ‘Eu Te Amo, Meu Brasil’”, conta.
“São coisas que acontecem nos bastidores e que o público não fica sabendo”, diz. Além desses apuros, Netinho lembra que a canção causou um racha dentro do grupo, que culminou com o fim da banda.
Sobre o presente, Netinho revela que Os Incríveis estão em um ritmo lento, fazendo poucos shows. Além dele, na bateria, como o único remanescente da formação original, a banda conta atualmente com Leandro, no vocal e baixo; Wilson, no saxofone; e Sandro Haick (filho de Netinho), na guitarra.
Por causa da baixa freqüência de show, Netinho informa que está voltando com a lendária Casa das Máquinas, que foi uma das grandes bandas brasileiras de rock progressivo nos anos 1980. O grupo nasceu assim que Os Incríveis encerraram as atividades.
Sobre o futuro, o baterista falou da expectativa para o lançamento de seu primeiro livro, intitulado “Netinho: Minha História ao Lado das Baquetas”. O lançamento está previsto para amanhã no Bourbon Street Music Club, em São Paulo.
Para abrilhantar a festa, duas bandas estarão se apresentando para os convidados. O caro leitor é capaz de adivinhar quais serão as bandas? Pois é. Os Incríveis e Casa das Máquinas. E Netinho garante que vai tocar nas duas.
“Não sei se vou agüentar, mas vou tentar”, brinca. O evento contará com a presença de duas gerações de roqueiros, incluindo Erasmo Carlos, Eduardo Araújo e Wanderléa (da época da Jovem Guarda), e Dinho (Capital Inicial), Chorão (Charlie Brown Jr.) e Lobão, entre outros do cenário atual.
O livro demorou três anos para ser escrito e a maior incentivadora desse projeto, segundo Netinho, foi a filha Samadhi Haick, que reside na Austrália e falava com o pai quase todas as madrugadas pelo computador, via Skype, enquanto ele passava para o papel sua história de vida.
No livro, Netinho conta desde sua infância, em Itariri, no extremo sul do Litoral paulista, até os dias atuais, passando por toda sua carreira artística e participações em eventos filantrópicos, como o projeto “A Criança e o Futuro”, voltado para o tratamento contra o câncer.
“Eu fui detalhista e procurei não ser chato. Essa era minha grande preocupação. Queria contar minha história de maneira prática, romanceada e poética”, diz ele para justificar o tempo que levou para escrever o livro, que ele considera sua melhor obra. “Mesmo porque fiz sozinho, não precisei de guitarrista, baixista e nenhum outro instrumentista”, diz, caindo na gargalhada.