De amanhã a 12 de abril, a Igreja estará novamente celebrando a Semana Santa, por muitos ainda respeitosamente chamada de Semana Maior. Num clima de alegria e dor, ela se inicia com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Esse Domingo revive o episódio do Cristo acolhido festivamente pelo povo e, cinco dias depois, rejeitado pelas elites religiosas dos judeus que o entregaram à autoridade romana, para ser condenado à pena de morte na cruz: “Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”.
Trata-se de uma celebração que nos impressiona e questiona ao colocar-nos diante do contraste do Cristo aplaudido, do Cristo sofredor, do Cristo rejeitado e condenado à morte. Domingo da contradição! Conforme nos relatam os evangelhos, encontrava-se Cristo nas imediações de Jerusalém. A cidade estava cheia de peregrinos que tinham vindo para a Festa da Páscoa. Numa manhã de Domingo, provavelmente no ano 30, Jesus entrou em Jerusalém pela encosta do monte das Oliveiras, montado num jumentinho, acompanhado pelos seus discípulos. Com ramos de oliveira nas mãos e colocando seus mantos por onde Jesus passava, o povo o aclamava alegremente dizendo: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito aquele que vem em nome do Senhor. Hosana no mais alto dos céus!” Sabemos que “isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Dizei à filha de Sião: eis que teu rei vem a ti, cheio de mansidão, montado num jumentinho, potro de uma jumenta”.
Antes, porém, de entrar em Jerusalém, ao avistar a cidade do alto do monte, Jesus chorou sobre ela anunciando sua destruição: “Não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. Este pranto de Jesus demonstra, sem dúvida, seu profundo e afetuoso sentimento patriótico. A acolhida termina dentro do templo, quando crianças o aplaudem ruidosamente, causando a indignação dos sacerdotes e escribas e provocando o elogio de Jesus: “Nunca leste que da boca dos pequeninos e das crianças de peito preparaste um louvor para ti”?
Após reviver esse episódio festivo, a solene Liturgia da Palavra desse Domingo passa a relembrar os acontecimentos dolorosos da vida de Cristo, que culminam com sua condenação e morte na cruz. Por isso tudo, o Domingo é chamado de Ramos e da Paixão do Senhor. A Paixão dolorosa será celebrada, com maior ênfase, na Sexta-Feira Santa, também conhecida como Sexta-feira Maior. Com o realismo dos relatos bíblicos, a Liturgia nos coloca diante do mistério de Deus que, assumindo nossa natureza humana, “humilhou-se até a morte e morte humilhante da cruz”. À luz da fé, podemos dizer que Deus derramou seu sangue por cada um de nós, por toda a humanidade!
Cristo enfrenta os sofrimentos e a ignomínia de sua morte numa heróica atitude de coerência com seus ensinamentos inovadores que contestavam todo o arcaico sistema religioso judaico. Tudo por um mundo novo de reconciliação com Deus e os irmãos, de fraternidade e solidariedade, de justiça e igualdade, de concórdia e paz.
A Paixão e morte de Cristo para sempre interpelarão os homens ao longo da história. Ninguém poderá ficar indiferente diante desse mistério no qual estamos envoltos porque nossos pecados também foram a causa de seus sofrimentos e de sua morte. “Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes,” exclama perplexo o profeta Isaías. “Sobre o madeiro da cruz ele levou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que mortos para os nossos pecados, vivêssemos para a justiça”, escreve o apóstolo Pedro. Neste Domingo de Ramos e da Paixão, coloquemo-nos face a face com o Cristo, servo sofredor de Javé. Com nosso limitado mas sincero amor somos convidados a corresponder ao seu infinito amor e a não rejeitá-lo com nosso modo de pensar e agir, como ocorreu há dois mil anos.
O autor, Frei Lourenço Maria Papin, é colaborador de Opinião