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Entrevista da semana: Capitão Jorge Duarte Miguel‘: Sou um homem feliz e realizado na vida’

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

A vocação e a dedicação foram decisivas na escolha profissional de Jorge Duarte Miguel. Com 26 anos de carreira militar e muitas realizações profissionais na defesa da segurança pública, ele se considera um policial realizado e feliz com os frutos colhidos, muitos dos quais ajudou a plantar, ao longo dos anos de profissão. Mas a plenitude do cidadão Jorge Duarte Miguel vai além da carreira militar. Ele também respira os acordes e letras da música sertaneja de raiz, que fala da paixão pela terra, do caipira e seus costumes.

Capitão Jorge é um dos responsáveis pela implantação no Brasil do bem-sucedido programa Jovens Construindo a Cidadania (JCC), trazido dos Estados Unidos com o intuito de conscientizar a garotada em idade escolar em uma cultura contra a violência, o uso de drogas e a marginalidade.

O amor pela música sertaneja de raiz o levou a dedicar seu tempo livre a compor canções e a aprender a tocar instrumentos como acordeon e viola caipira, habilidade que já exibiu pelo País afora em programas como o “Viola Minha Viola”, de Inezita Barroso, na TV Cultura.

Integrante da dupla “Duarte & Rodrigues”, Jorge se prepara para lançar seu novo CD, “Volta por cima”, onde ele conta, feliz da vida, com a composição de seu filho em uma das músicas do álbum. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo capitão Jorge ao Jornal da Cidade.

JC - Como surgiu a decisão de seguir carreira militar?

Capitão Jorge - Em 1982 eu era soldado do Exército pela 6.ª Circunscrição de Serviço Militar (CSM), aqui em Bauru. Em uma daquelas madrugadas de guarda, eu vi um cartaz da Academia Militar do Barro Branco e outro da Academia das Agulhas Negras. Estava em idade de busca pela profissão e comecei a me interessar pelo militarismo. Tive aulas com um tenente aposentado do Corpo de Bombeiros que me deu muitas dicas sobre vestibulares militares e fiz cursinho pré-vestibular. Fiquei um ano me preparando fisicamente, também. Sempre gostei muito de estudar e, em 1983, prestei a prova da Barro Branco e passei em ótima colocação.

JC - Como foi a vida na academia?

Capitão Jorge - No início foi complicado, porque não estava acostumado a ficar longe da família. Mas fui me adaptando. A preparação física lá era intensa e o regime, rigoroso. Porém, apesar do cansaço, eu gostava muito. Passei quatro anos lá como cadete e me formei em dezembro de 1987, quando fui proclamado aspirante a oficial.

JC - Trabalhou em São Paulo?

Capitão Jorge - Assim que me formei fui trabalhar na área sul da cidade de São Paulo, e um tempo depois na zona central. Trabalhei na Capital paulista por um ano e meio. Ali tive meus primeiros contatos com as ocorrências boas, como salvar vidas, e as mais pesadas, como assaltos e contato direto com bandidos. Posso dizer que, em São Paulo, pude amadurecer profissionalmente. Lá, tudo pode acontecer.

JC - O que mais marcou durante o tempo em que trabalhou na Capital paulista?

Capitão Jorge - São muitas lembranças. Uma vez uma mulher acenou para a viatura e gritou que seu filho estava morrendo. O local era de difícil acesso e a criança estava em crise convulsiva. Eu fiz a respiração artificial na criança e a levamos “voando” para o hospital. Graças a Deus ela ficou bem e ouvimos dos médicos que havíamos salvado a vida daquela criança. Não dá para esquecer. Também ajudei a fazer um parto dentro da viatura em movimento. Tudo foi possível pelo ótimo treinamento que recebemos na academia aliada à vontade de salvar vidas.

JC - Passou por dias difíceis nas ruas de São Paulo?

Capitão Jorge - Perdi alguns colegas e amigos baleados por bandidos durante o trabalho. Muitas vezes estava conversando com um colega no início do trabalho e, no dia seguinte, estava consolando a família dele.

JC - Quando o senhor veio para Bauru?

Capitão Jorge - Foi em 1989. De 1990 para 1991, me foi confiada a missão de ser comandante do Tático do 4º Batalhão. Isso foi muito importante para minha vida. O grupo foi criado para combater a criminalidade de uma forma alternativa. Treinamos muito a parte de choque, invasão de presídios e o combate à criminalidade de forma efetiva. Comandei o Tático até 2000. Acredito que essa foi a minha melhor época profissional. O convívio e o relacionamento do grupo eram ótimos. Bastava um olhar para o outro para ser entendido. Foi um grupo de excelentes e competentes policiais. Aprendi muito com eles. Depois, trabalhei por quatro anos em Ribeirão Preto, onde atuei bastante com o JCC. Hoje, trabalho em Avaré.

JC - O que é o programa JCC?

Capitão Jorge - O programa Jovens Construindo a Cidadania (JCC) foi importado dos Estados Unidos da América e aperfeiçoado aqui. O programa foi bem aceito pelo comando-geral da PM, que percebeu sua eficiência. São criados núcleos de alunos dentro das escolas e esses alunos são treinados para “combater” as coisas ruins que podem estar acontecendo dentro das instituições. Os policiais treinados vão até as escolas debater e dialogar sobre formas de se ficar longe da violência, drogas e crime. São dicas adaptadas à realidade dos grupos que têm a finalidade de retransmitir essas informações aos outros alunos.

JC - Como o programa chegou ao Brasil?

Capitão Jorge - Em 1996, eu, o coronel Meira (tenente-coronel Benedito Roberto Meira), o capitão Godoy (Daniel Correia de Godoy) e o cabo Altair (Altair Pedro Júnior), apoiados pela comunidade, fomos para Miami, nos Estados Unidos, para conhecermos o trabalho de uma polícia internacional. Tínhamos apenas sete dólares para gastar diariamente com alimentação e ficamos lá por dez dias. Foi difícil, mas isso é motivo de orgulho, porque os dias lá foram altamente proveitosos. Conhecemos o projeto através do tenente Gerald Rudoff, presidente mundial do JCC, que veio ao Brasil para nos ajudar com a realização do projeto. O Jornal da Cidade teve uma participação efetiva e decisiva na realização do programa. Quando os americanos vieram ao Brasil trazer o programa, o JC deu total apoio à implantação do programa. Além de incentivar a vinda dos policiais norte-americanos para dar palestras, o JC ainda incentiva as atividades realizadas pelo JCC.

JC - Trouxeram outros programas dos EUA?

Capitão Jorge - A idéia do policiamento com bicicleta foi trazida de lá também. Aplicamos aulas para crianças de 10 a 12 anos sobre como andar de bicicleta de forma segura. Adaptamos as técnicas deles à nossa realidade.

JC - Quais são os frutos colhidos com o JCC?

Capitão Jorge - Muitos alunos dizem ter conseguido respeito na comunidade em que vivem graças ao programa e aos exemplos positivos dos policiais. São depoimentos desse tipo que nos fazem acreditar na eficiência do JCC. Muitos desses alunos tinham problemas com a Justiça e melhoraram muito trabalhando conosco no programa. Eles organizam atividades esportivas, campanhas sociais, orientação de trânsito etc. É muito bom ver jovens que tinham de tudo para pender para o lado do crime, se transformarem em pessoas melhores. Essa é a ideologia do programa.

JC - Onde o JCC está implantado hoje?

Capitão Jorge - Começou em Bauru e, hoje, abrange cerca de 200 escolas do Estado de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Há instrutores habilitados em 15 Estados e cada vez mais escolas estão aderindo ao programa. Há uma troca de informações entre Brasil, Estados Unidos e alguns países da África.

JC - O que pensa em fazer quando se aposentar?

Capitão Jorge - Falta menos de quatro anos para eu me aposentar. Quero curtir a família e, quem sabe, me dedicar à música e à literatura, compor mais canções.

JC - Como o gosto pela música surgiu?

Capitão Jorge - Gosto da música desde criança. Meus avós, pais e tios se reuniam para tocar viola e sanfona. Eu gostava muito de estar junto deles, ouvir Tonico & Tinoco, entre outras duplas caipiras. Em 1986, meu pai me deu um violão e comecei a aprender sozinho. Mais tarde, em 1980, tive aulas de sanfona. Hoje tenho mais de 60 músicas de minha autoria e aprendi a tocar viola caipira praticamente sozinho.

JC - Existe um projeto musical atual?

Capitão Jorge - Sim. Acredito que em uma semana, no máximo, meu segundo CD, “Volta por cima”, estará pronto. Hoje, faço uma parceria com o massagista do Esporte Clube Noroeste, o Rodrigues. Nossa dupla é “Duarte & Rodrigues”. Uma das minhas alegrias desse trabalho é uma música de composição de meu filho.

JC - Qual é o estilo da dupla?

Capitão Jorge - Sertanejo raiz. As canções falam da vida do caipira brasileiro. Sobre a roça e os valores morais que eram colocados de maneira diferente, há algumas décadas. Dou muito valor às mensagens positivas que o caboclo tem a passar.

JC - A música tem um bom espaço em sua vida hoje?

Capitão Jorge - Por enquanto é um hobby. Já me apresentei duas vezes no programa da Inezita Barrozo, o “Viola Minha Viola”, da TV Cultura, e faço apresentações em Bauru e região. A música serve como um alívio e um descanso para mim. Minha bisavó era índia de uma tribo do litoral e meu bisavó se apaixonou por ela quando estava por lá a trabalho. Fugiram e se mudaram para cá. Tenho muito orgulho dessa minha descendência e, por causa dela, me aproximei da dupla Cacique & Pajé. Com esse contato me aproximei da comunidade indígena de Avaí e fui batizado na aldeia. Recebi o nome de Awa Tenondé Imbareté que, em tupi-guarani, significa homem forte, linha de frente e de bom coração. Fiquei amigo dessa tribo e os respeito muito.

JC - O que sente quando está nos palcos?

Capitão Jorge - Minha primeira apresentação foi na academia do Barro Branco, para 800 alunos. Mas o que me emocionou mesmo foi a primeira vez que me apresentei no programa da Inezita Barroso. Meus pais estavam na primeira fila e isso me emocionou muito. Mas quando comecei a cantar, o fato da minha família estar ali me tranqüilizou bastante.

JC - O senhor se considera um homem realizado?

Capitão Jorge - Sim. Fiz muitas amizades aqui e fora do Brasil. Ganhei o título de sherif nos Estados Unidos e sou respeitado por meu trabalho aqui. Sempre fiz de tudo para fazer o meu melhor na profissão. Me sinto bem com os frutos que colhi e que ajudei a colher. Tenho uma família fantástica que eu adoro e me dá muito carinho. Sou um homem feliz e realizado.

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Perfil

• Nome: Jorge Duarte Miguel

• Idade: 45 anos

• Local de Nascimento: Bauru

• Esposa: Leonice

• Filhos: Bruno e Bárbara

• Hobby: Tocar acordeon e viola

• Livro de cabeceira: Memórias Póstumas de Brás Cubas

• Filme preferido: Ação e aventura

• Estilo musical predileto: Sertanejo (raiz)

• Time: Noroeste

• Para quem dá nota 10: Meus pais

• Para quem dá nota 0: Ninguém

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