Bairros

Casa São Jorge: herança passada de coração

Maíra Soares
| Tempo de leitura: 3 min

A história começa com um mascate sírio que vendia elástico, botão e linha. Vindo de Franca, Elias Salomão chegou a Bauru em 1905. Como a cidade abrigava um trecho de uma importante ferrovia, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, Salomão acreditou que criar raízes aqui e utilizar o trem como meio de transporte para vender seus produtos nos vagões e nas paradas seria um bom negócio.

O tempo passou e mostrou que o mascate estava certo. Seu negócio prosperou e, por volta de 1910, Elias abriu um armazém de secos e molhados em uma casa na rua Azarias Leite, que ficava perto da estação de trem, o que facilitava o transporte das mercadorias. O comércio de chapéus e alpargatas era o forte da loja. Mais tarde, os tecidos tomariam conta das bancas e prateleiras. Assim nascia a Casa São Jorge.

Filho único de Elias e Assma Cury, Jorge Elias Salomão começou a trabalhar atrás do balcão aos 14 anos, tomou gosto pelo negócio e decidiu levar à frente o sonho do pai. As vendas foram bem e o herdeiro conseguiu criar seus três filhos com o trabalho. Antônio tornou-se médico e vive em São Paulo. Fernando formou-se engenheiro civil e foi seu braço direito na administração da loja. A advogada Ignez morreu aos 42 anos, vítima de câncer.

Como os filhos rumaram para outras profissões, o proprietário decidiu contratar na década de 70 os primeiros funcionários. Com a ajuda de empregados e da esposa Theolinda Vaz Salomão, Jorge cuidou da Casa até seus 89 anos.

Com a morte dos pais, Fernando e Antonio assumiram os negócios, mas o ramo de atuação deles era outro. “Era o sonho do meu pai que eu largasse a engenharia para ficar na loja. Mas esse não era o ramo da gente. Foi então que pensamos em fechar”, conta Fernando Salomão.

A idéia de acabar com a Casa Salomão não agradava nem aos filhos e muito menos aos funcionários. “Quando meu pai morreu, ele pedia para não fecharmos a loja e isso ficou na minha cabeça.”

O funcionário Milton de Jesus Gonçalves se preocupava com o futuro. “Fechando a loja, ia fechar um pedaço de Bauru porque esta é uma das lojas mais antigas da cidade. Além disso, eu e meu filho iríamos perder o emprego.”

Foi neste momento, em 2007, que surgiu a idéia inusitada de passar a loja para os funcionários. Fernando e Antonio viram nesta possibilidade a chance de manter o sonho do pai e ajudar os amigos. “O Fábio, o Milton e a Eliana não são empregados, ele são da família. Eles ajudaram muito meus pais na época em que eles adoeceram. Minha meta era manter o sonho do meu pai e ajudá-los a manter a vida profissional deles. Acho que ficou bom para todo mundo”, diz Fernando.

Atualmente, Milton de Jesus Gonçalves, Fábio de Oliveira Gonçalves e Eliana Garrucho administram a loja. “Assumimos a loja com a cara e com a coragem, sem dinheiro. Enfrentamos o desafio e a parte mais difícil passou. Estamos animados porque não vamos decepcionar nem o Fernando e nem Bauru”, diz Milton.

Duas ou três vezes por semana Fernando vai à loja para tomar um cafezinho e bater papo com os amigos. Os novos donos estão contentes e agradecem os clientes por continuarem freqüentando a loja. A história é ou não é digna de enredo de novela?

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