É óbvio que o Brasil é um país tropical e, portanto, com alta incidência de radiação solar. Deixar o carro parado o dia todo no sol é mais do que judiação, tanto para o carro quanto para os ocupantes. O volante fica quase impossível de pegar nas mãos de tão quente, os bancos (principalmente se revestidos de couro) queimam as pernas e todo o resto, além do habitáculo ficar com cheiro de queimado e temperatura ambiente extremamente desagradável.
A película escurecedora adesiva aplicada aos vidros, mais conhecida pelo seu nome comercial insulfilm, foi inventada para reduzir a insolação interna através dos vidros laterais e traseiro, pois a instalação no parabrisa é proibida. O Código Nacional de Trânsito libera a aplicação da película da seguinte forma: vidros do motorista e do acompanhante, 70% de transparência, os demais 50%, inclusive o traseiro.
A película filtra os raios solares, evitando um aquecimento excessivo dentro do habitáculo. Mas a visibilidade fica prejudicada proporcionalmente, principalmente à noite ou em garagens escuras, onde detalhes ficam obscurecidos e até mesmo invisíveis ao motorista. Com chuva então, o problema se agrava com as películas muito escuras.
Outro fator de segurança a meu ver também pode ser prejudicado: o fato do motorista poder se comunicar por gestos, como permitir a passagem de um pedestre, ou o fato de nós vermos o outro motorista e anteciparmos suas reações, como percebermos que ele não nos viu através do retrovisor, se está desatento falando ao celular, etc. Como ele fica escondido atrás de uma janela escura e nós também, portanto a transparência caindo mais ainda, perdemos este referencial de segurança. Sem contar com o fato de que a película ainda nos tira a visibilidade através do carro dos outros, para vermos uma rua transversal antes de atravessá-la, avaliar o tráfego à frente e atrás, ou ver um pedestre ou mesmo o brake light de 3 carros à frente.
O escurecimento excessivo dos vidros ainda traz outro problema. A privacidade que a película oferece é uma faca de dois gumes, pois abriga na penumbra tanto mocinhos quanto bandidos. Da mesma forma que seguradoras e policiais recomendam o uso de película escurecida nos vidros como inibidora de assalto, pois o bandido não sabe da reação da pessoa dentro do carro e opta por não investir, tem gente aproveitando a mesma proteção inibidora para cometer assaltos relâmpagos e seqüestros. A polícia não pode nem suspeitar do que está em andamento já que não enxerga o interior do veículo.
Ainda por cima, o processo de colagem da película nos vidros afeta os filetes da resistência elétrica do vidro traseiro e, quando mal aplicados, causam interferências ao deslizamento dos vidros nas canaletas, danificando os motores de levantamento dos vidros.
A película plástica ainda diminui a recepção das ondas de rádio, o que impossibilita alguns veículos que dispõem de antenas internas ou embutidas no vidro traseiro de aplicá-la.
Mas como brasileiro é metido a esperto, já inventou outras aplicações para a película. Em primeiro lugar, o filme é aplicado em carros novos e usados mais por moda do que por necessidade. Compra-se um carro qualquer, sem direção hidráulica nem ar condicionado, mas a película está lá. Como a fiscalização ainda não está preparada para medir a real transparência dos vidros, espertinhos colocam uma película bem mais escura que a permitida e carimbam o valor permitido no vidro, tornando-a legal. É comum vermos carros com vidros totalmente pretos em que não se enxerga absolutamente nada em seu interior. E o pior é que isto é muito comum em carros oficiais de autoridades públicas, que alegam que as usam por segurança e privacidade, mas que também impedem ao mesmo tempo um maior controle do contribuinte, para saber quem está usando aquela viatura naquela hora e naquele lugar, certo? Neste caso deveria haver uma transparência muito maior, tanto nos vidros (basta usar os valores de transparência homologados) quanto na atividade da “autoridade”.
Para chegarmos a algum controle no assunto, a fiscalização deve ser mais rigorosa e equipada com um aparelho chamado luxímetro, que está sendo homologado pelo Inmetro, para medir a transparência real do vidro e impedir abusos de todas as partes.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.