Órfão de pai, que morreu vítima da tuberculose, Sebastião Paiva começou a trabalhar com 11 anos para ajudar no sustento da família. Apesar da vida profissional precoce, o espírito solidário, recordam familiares e pessoas próximas, também despertou cedo. Ainda jovem, morador de Dois Córregos, Sebastião, ao lado de colegas, recolhia alimentos para entregar aos mais carentes daquele município. Agora, aos 100 anos, completados ontem, “seo” ou “tio” Paiva, como é conhecido, tem uma vida toda dedicada à filantropia.
Gozando boa saúde e lúcido, Paiva ainda terá festa no final de semana, quando o aniversariante será homenageado, numa iniciativa do grupo “Voluntários em Ação”, com uma placa, a ser descerrada sábado à tarde, em frente ao Abrigo a Idosos da Bela Vista, uma das entidades fundadas por ele. Ontem à tarde, familiares, amigos, além de muita gente que conta ou já contou, de uma forma ou de outra, com o espírito solidário de Paiva, participaram de uma festa, realizada na sede da Sociedade Beneficente Cristã, órgão assistencial também idealizado pelo aniversariante centenário.
Antes do corte do bolo que, se não tinha uma centena de velinhas ostentava um grande número 100, a trajetória do aniversariante foi lembrada por convidados em discursos que ressaltaram a trajetória de vida de Paiva, sempre pautada pela caridade, desde a infância. Sereno, mas atento ao evento, o homenageado, após contar o bolo, foi cumprimentado por dezenas de admiradores, que fizeram fila para parabenizar Paiva.
Ailton Paiva, sobrinho de Sebastião, ressaltou a grandiosidade espiritual do tio. Seguidor da doutrina espírita, Paiva, de acordo com Ailton, aos 100 anos, é exemplo de uma vida dedicada ao próximo. “Nunca vi meu tio resmungar, reclamar ou fazer ‘pulso mole’”, testemunha.
A prática de sempre ajudar o próximo frutificou na construção de um asilo, que continua em funcionamento. “Sua dura infância serviu, como ele próprio admite, para despertar no íntimo o desejo de ajudar ao próximo e dedicar-se à caridade”, valoriza o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), em artigo redigido pelo parlamentar, publicado na edição de ontem do JC.
Em Bauru, para onde foi transferido como telegrafista, Paiva prosseguiu com o lema da caridade e fundou entidades assistenciais de referência no amparo tanto a jovens, auxiliados por meio da educação, quanto a idosos e crianças órfãs.
O lema de Paiva é refletido em histórias de vida que, não fosse a intervenção do benfeitor, talvez, caminhassem para desfechos comuns entre pessoas sem oportunidades numa socidade materialista e individualista.
Quem comprova é a costureira Lucinéia Francisco de Matos. Aos 38 anos, casada e mãe de dois filhos adolescentes, ela foi uma das assistidas pela Sociedade Beneficente Cristã e ontem prestigiou o aniversário de Paiva. “É emocionante comemorar os 100 anos de alguém que modificou, para melhor, tantas vidas”, celebra a costureira, que permaneceu na instituição, onde aprendeu o ofício que a ajuda a manter sua família, entre os 7 e 18 anos. “Meus pais não tinham condições para cuidar de mim. Aqui (na entidade) tive tudo”, diz, emocionada, ao lembrar um dos principais ensinamentos que recebeu de Paiva. “Ele sempre diz que a gente é o ‘sal da terra’. Estamos aqui para dar ‘sabor’ à vida das pessoas”, enaltece.
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Biografia
Em meio à celebração, Ailton Paiva também apresentou o livro “Histórias e Recados do Mundo Espiritual”, psicografado por ele. A obra, apesar de conteúdo espírita, contém, no último capítulo, uma biografia resumida de “seo Paiva”, concebida pelo próprio sobrinho.
Em meio a tanta gente que aguardava para cumprimentá-lo, o lúcido aniversariante reparte, entre uma recordação e outra, um pouco de toda vivência adquirida ao longo do centenário que acaba de ser completado. Além disso, Paiva também faz questão de revelar o segredo para a longevidade: “fazer o bem para outras pessoas”, resume o aniversariante.