A simplicidade e a voz mansa do pesquisador Roberto Vicente Calheiros não escondem a inteligência nem a paixão pela ciência, despertada já na infância e eternizada em dezenas de trabalhos e artigos publicados ao longo de sua carreira e em seus dois pós-doutorados, um realizado na França e outro no Canadá, pela Universidade de Quebec.
Nascido em Bauru, o cientista trabalhou com as primeiras imagens de satélites meteorológicos do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”, um dos pioneiros do hemisfério sul em medição por radar, e hoje ocupa o cargo de vice-diretor e coordenador de pesquisa do instituto.
A carreira de doutor Calheiros se funde com a história do Ipmet, que neste ano completa 40 anos de atuação no campo da meteorologia e chega a ultrapassar os 90% de eficiência nas previsões do tempo para o Interior paulista.
Especialista em meteorologia e sensoriamento remoto da atmosfera, ele já participou de muitos eventos nacionais e internacionais, onde vem desenvolvendo projetos de pesquisas. Em 2002, o cientista bauruense recebeu o prêmio “Group Award – Nasa.
As mudanças climáticas que a humanidade vem sentindo e o pioneirismo no trabalho com a meteorologia são os destaques da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Confira os principais trechos.
Jornal da Cidade – Como tiveram início suas pesquisas no IPMet?
Calheiros - Minha carreira no instituto se funde com a história dele. Fui convidado em março de 1969 para, entre outras coisas, o desenvolvimento de pesquisas. A idéia era eleger algumas áreas muito específicas e me convidaram para a parte de eletrônica associada à aplicação em meteorologia. Eu trabalha com a parte de satélites em São José dos Campos. E, devido a minha experiência, fui convidado a desenvolver um trabalho no IPMet/Unesp de meteorologia em aplicação de satélites. O intuito era instalar aqui uma estação de transmissão para captar imagens de satélites meteorológicos nacionais. Instalar uma estação dessas aqui para o desenvolvimento de pesquisas de meteorologia era fundamental, já que essa área era pouco desenvolvida na época. Hoje, ainda há muito para se avançar em meteorológica, imagine há 40 anos.
JC - Qual sua função no Ipmet/Unesp hoje?
Calheiros – Sou vice-diretor e coordenador de pesquisas e minha área específica é quantificação da precipitação utilizando radar meteorológico, além da caracterização da precipitação e da intensidade de chuva por milímetros/hora. Trabalhei a recepção das primeiras imagens de satélites meteorológicos operacionais aqui. Eu diria que o projeto de radar desenvolvido em Bauru é um dos pioneiros do hemisfério sul.
JC - Por que a escolha de Bauru para desenvolver as pesquisas?
Calheiros - Havia um grande interesse do governo federal em apoiar e financiar o desenvolvimento da meteorologia no País porque é uma área de alto benefício custo, além de ser muito abrangente em termos de áreas do conhecimento. Eu apresentei o projeto e nosso primeiro radar chegou em julho de 1974. Depois foi trocado pelo atual e moderno, em 1992. Em 1998, colocamos um outro radar em Presidente Prudente. Bauru está próxima do centro geográfico do estado de São Paulo, e um equipamento precisa ser instalado em um lugar que dê para cobrir a maior área possível.
JC - Como é feita a previsão meteorológica?
Calheiros - Ela tem várias escalas. São feitas uma série de observações na capa de ar onde vive o homem, ou seja, na troposfera, no sentido horizontal- latitude e longitude - e altura. Essas medidas e observações são fornecidas ao computador que tem modelos que simulam e reproduzem, aproximadamente, como a atmosfera se comporta a partir do momento em que pegamos aqueles dados. O computador acelera o andamento da evolução do tempo e nos diz como é que ele vai estar num futuro próximo, essa é a previsão.
JC - Existe apenas esse tipo de previsão?
Calheiros - Essa é uma previsão que vai até 24 horas de antecedência ou mais, mas com uma resolução espacial um pouco mais grosseira, pode-se assim dizer. Temos dois extremos nas escalas de tempo e espaço de previsão: a resolução em área e a antecedência na previsão. A previsão climática nos diz, alguns meses antes, se o período vai ser mais chuvoso ou mais seco, mais quente ou frio, em determinada região do Estado, esse é um extremo. O outro, é chamada previsão imediata, a que nós fazemos aqui. Ela é feita com antecedência, às vezes, de minutos e dá o local com grande precisão do que vai acontecer, como uma chuva forte que pode provocar enchentes, por exemplo.
JC - Qual a margem de erro das previsões?
Calheiros - Hoje ela é bem mais eficiente que há um tempo atrás. Podemos garantir precisão de mais de 90%, dependendo das condições do tempo. Mas temos margens de erro e as pessoas não devem confundir a previsão com profecia.
JC - É possível traçar uma comparação da quantidade de chuva hoje com alguns anos atrás?
Calheiros - Temos uma série mais comparável a partir de 1992 e 1993. Estamos fazendo um estudo para ver se conseguimos traçar um parâmetro da variabilidade da chuva nesse período até o atual.
JC - Enchentes em Santa Catarina, furacões e tornados pelo mundo, grandes secas, entre outros. Quais são os grandes responsáveis por esses freqüentes fenômenos naturais que vêm atingindo todo o planeta?
Calheiros - Estamos tendo um aumento dos extremos climáticos, essa é uma das conclusões do painel intergovernamental de mudanças climáticas. Por exemplo, os extremos de chuvas. Temos correntes mais intensas em alguns pontos do planeta e secas mais severas em outros. No Brasil, há uma distribuição irregular dessas águas, isso é uma conseqüência das mudanças climáticas.
JC - Essa irregularidade de chuvas é decorrente do efeito estufa?
Calheiros - Pode ser sim. Porém, não se pode garantir antes de ser feito um estudo localizado para saber como evolui a precipitação. Contudo, o último estudo que li, mostra que no Sul do País, há um aumento da precipitação, enquanto na costa leste, do Rio de Janeiro para cima, há uma diminuição de chuvas. E, na Amazônia, está havendo um problema com a continuidade da vegetação devido a essa variabilidade de chuvas, ocasionada pelo aumento de temperatura.
JC - Quais os maiores riscos que o aumento da temperatura pode trazer para o Estado de São Paulo?
Calheiros - Um dos cenários seria a impossibilidade da cultura cafeeira, caso a temperatura atinja um aumento de 5,8 graus, aproximadamente. Atualmente, existem dados que apontam um aumento de 2 graus na temperatura, ou até um pouco mais.
JC - Quais são as principais mudanças climáticas já sentidas na região de Bauru?
Calheiros - Ainda estamos fazendo esses estudos e testes estatísticos, mas já notamos um aumento da intensidade e concentração de chuva. Estamos levantando dados para saber quais são as tendências da região, ainda não dá para garantir quais são as projeções.
JC - Existe um lado benéfico no aumento da temperatura?
Calheiros - O cultivo da cana-de-açúcar se beneficiaria com temperaturas mais altas e, algumas regiões do hemisfério norte como o Canadá, onde muitas culturas não produzem no inverno porque fica tudo congelado, poderiam começar a produzir com o aumento das temperaturas. Mas no balanço geral, os problemas serão muito maiores que esse lado benéfico.
JC - O senhor acredita que dá para frear o aquecimento global?
Calheiros - Os gases do efeito estufa como o gás carbônico, por exemplo, ficam na atmosfera por centenas e até milhares de anos. Se o processo de poluição parasse agora, ainda teríamos esses gases, em grande quantidade, na atmosfera.
JC - Então não há solução?
Calheiros - Eu acho que agora a melhor alternativa é nos prepararmos para a adaptação. A adaptabilidade vem tendo uma grande atenção no mundo todo. Temos até uma disciplina nova no curso de meteorologia que vem para preparar o meteorologista para orientar as políticas de governo, indústria, etc, ensinando como proceder para se adaptar às mudanças climáticas.
JC - O senhor teme o que pode ocorrer com o planeta?
Calheiros – Acho que não devemos ter medo de nada e, principalmente, com o que é inevitável. O medo serve para ação, mas como nesse caso não adianta, ele não serve para nada. O que precisamos é da adaptabilidade para enfrentarmos as mudanças que já estão ocorrendo e tendem a aumentar.
JC - Os grandes governantes estão preparados para lidar com essa nova realidade?
Calheiros - Esse raciocínio pode até parecer simplista. Mas, para melhorar consideravelmente os impactos no clima, os países precisariam intervir severamente na atividade econômica e isso poderia prejudicar a economia, consideravelmente. Isso é um dilema e uma situação de compromisso. Até onde eu posso segurar o desenvolvimento econômico para garantir uma eventual melhora na deterioração do clima? O que é mais danosa para a população? É difícil saber o que deve ser feito e em que grau.
JC - O que é o tempo para o senhor?
Calheiros – Eu considero o tempo não cronológico como o estado da atmosfera em dado momento e a sua projeção para até duas semanas de antecedência, passando de um mês, já seria o clima. Já o tempo cronológico eu considero como escoamento, evolução da vida e permanência da matéria no universo conhecido e imaginável.
JC - O que mais te fascina na ciência?
Calheiros - Acredito que a fascinação da profissão é uma coisa intrínseca, própria de cada um. Quando eu era criança, gostava muito de desenhar máquinas e já tinha a natureza investigativa em mim. Ainda tem o lado extrínseco, ou seja, o atendimento da necessidade da sociedade. Por exemplo, minha formação foi quase toda paga pela sociedade brasileira e eu me sinto na obrigação de devolver isso e o faço trabalhando no desenvolvimento científico-tecnológico. Para mim, a responsabilidade do meteorologista é muito grande, porque se deixamos de dar uma informação ou erramos, pode vir uma tempestade e pegar alguém ou uma cidade inteira de surpresa, por exemplo. Não dá para voltar no tempo e corrigir o erro. Assim, considero meu trabalho de grande valia para a sociedade.
JC - O senhor citaria um nome da ciência como ídolo ou ícone?
Calheiros - Olha, Albert Einstein tinha uma capacidade avaliativa, analítica e preditiva realmente excepcionais. Eu não conheço outros iguais, mas o que mais me chama a atenção nesse cientista é a religiosidade dele. Mesmo sendo um dos pesquisadores que atingiram o mais alto grau de desenvolvimento no conhecimento, ele tinha uma crença em Deus muito grande. Uma vez perguntaram a ele se a religião o interessava e ele respondeu que apenas queria saber quais eram os pensamentos de Deus, nada mais importava para ele.
JC - O senhor também crê em Deus?
Calheiros - Não há como não crer. Deus é o ente onisciente, onipresente e onipotente, como a própria Bíblia diz. É o espírito maior que paira no universo e cuja compreensão não me é dada agora. Tenho a convicção de que ele traçou a vida de cada pessoa.