Após oito meses da transferência de dom Luiz Antônio Guedes para a Diocese de Campo Limpo, o papa Bento XVI anunciou ontem o nome do novo bispo da Diocese de Bauru. Trata-se de dom frei Caetano Ferrari, 66 anos, que virá de Franca. Com o novo desafio, retornará à sua região de origem (é nascido em Pirajuí). Franciscano, é apontado como uma pessoa simples e acessível, ligado à educação e à natureza, cujo perfil transita entre o moderado e progressista. Dom frei Caetano Ferrari, no entanto, não se vê classificado nessas categorias.
“Estou bem sintonizado, inserido no caminhar da igreja. Meu perfil, eu resumo assim: é o desejo muito grande de servir a Deus, à Igreja, ao povo de Deus e de Bauru. Vivo sempre em comunhão com a Igreja, o santo padre o Papa, com o magistério da Igreja, com o Concílio Vaticano Segundo, com os documentos da assembléia latino-americana, com o documento agora de Aparecida, com as diretrizes da Igreja. Participo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na área da educação. Minha experiência pastoral é no campo da educação”, comenta.
Uma área que ele pretende investir. “Evangelizar o que é? Educar a partir da formação integral da pessoa. Não é só passar conhecimento. É também formar caráter, personalidade. A criança e o adolescente, que também tenham formação religiosa desde de cedo, têm abertura para a transcendência”, comenta.
Na cidade
Oficialmente, dom frei Caetano Ferrari tomará posse no dia 31 de maio, quando a diocese celebra a festa de seu padroeiro, Divino Espírito Santo. “Cabe ao bispo nomeado, depois de chegar, tomar conhecimento da realidade. Desejo visitar o quanto antes as paróquias, conhecer bem a diocese. Tudo vai seguir como está, o planejamento em vigor. Depois, devagar, a gente vai contribuir, fazer sugestões a partir da minha experiência”, explica. Ele foi nomeado bispo coadjuvador de Franca em 2002 e, em novembro de 2006, com a aceitação da renúncia de dom Diógenes Silva Matthes, tornou-se bispo de Franca.
Filho de um pequeno agricultor de Pirajuí e de uma italiana, sua primeira formação religiosa foi em casa. Foi ordenado presbítero em 1970.
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Sé Vacante
Bauru continuará Sé Vacante até dia 31 de maio, quando dom frei Caetano Ferrari assumirá oficialmente. Enquanto isso, segue à frente da Diocese de Bauru o administrador diocesano Luiz Eduardo Monteiro Fontana, pároco em Iacanga, além do colégio de consultores - formado por um grupo de padres.
É bem provável que o grupo apresente ao novo bispo a realidade local. “Hoje, a gente precisa caminhar para onde a Igreja nos pede. A Igreja nos pede que sejamos discípulos missionários, seguidores de Jesus. Temos de anunciar Jesus com a própria vida. O desafio do bispo, dos padres, do leigo engajado, é buscar aqueles que estão longe. Colocar para as pessoas que vale a pena seguir o reino de Deus”, comenta Fontana, que demonstrou grata surpresa com o nome de dom frei Caetano Ferrari.
De acordo com o padre, o principal desafio é tocar o coração das pessoas e torná-las menos violentas. “Isso acontece quando ela tem um encontro pessoal com Jesus. É o grande desafio dos religiosos”, reitera. Fontana destaca que, quando o novo bispo assumir, fará exatos oito meses que o colégio de consultores estará à frente da Diocese de Bauru. Mas a cidade já ficou sem bispo por período bem superior. Até que dom Luiz Antônio Guedes assumisse Bauru, a diocese permaneceu como Sé Vacante por 14 meses, quando Aloysio Leal Penna assumiu a Arquidiocese de Botucatu.
Dom frei Caetano Ferrari é o quinto bispo de Bauru. O primeiro foi dom Vicente Angelo Marchetti Zioni, seguido pelo beneditino dom Cândido Padin, depois foi nomeado o jesuíta dom Aloysio Leal Penna, substituído por dom Luiz Antônio Guedes.
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Religioso é ligado às suas origens
“Sou filho da terra. Tenho particular afeto com minha origem”, comenta em entrevista dom frei Caetano Ferrari, referindo-se ao retorno à região. Em seu brasão, uma tradição na Igreja Católica, existem elementos, inclusive, que remontam a Pirajuí.
“Como os rios da minha cidade. Pirajuí significa rio do peixe dourado. Tem também os ramos de café. Pirajuí teve muito café. Tenho familiares aí em Bauru e muitos amigos. Minha raiz vocacional franciscana também está aí. Estudei no Seminário de Santo Antônio, em Agudos”, afirma o novo bispo. O lema de seu brasão de armas é “Evangelizar toda criatura”.
“É tirado do Evangelho de Marcos e é também da espiritualidade missionária franciscana. Para São Francisco, evangelizar não é só evangelizar o ser humano, mas também toda a criação. É encher a terra, o cosmos, com a semente do Evangelho. Vai acompanhar minha caminhada aí também”, explica, ao destacar que em seu brasão ainda constam as sandálias franciscanas.
“Sempre desejei ser padre. Nasci em Pirajuí e desde cedo fui coroinha da Igreja. Minha vida social sempre foi dentro da Igreja. O carisma franciscano me entusiasma desde de cedo. É muito forte, muito bonito”, avalia. Provavelmente, por conta da empolgação, é conhecido por fazer homílias longas, com quase uma hora. Já no aspecto mais “terreno”, outro assunto que o anima muito, segundo apurou a reportagem, é o futebol. O bispo é um entusiasmado torcedor do São Paulo Futebol Clube.
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Ser franciscano é adotar a simplicidade
Ser franciscano é adotar um estilo de vida próprio, a exemplo de São Francisco de Assis. “Pessoa de simplicidade, atenta às necessidades dos pobres, às questões da ecologia, à questão da justiça e da paz. Da contemplação da vida com alegria, não como caminho de dor, tristeza”, explica o padre frei Vitalino Turcado, pároco da paróquia de Santo Antônio, em Agudos. Ele foi colega de turma do novo bispo, a quem classifica como uma pessoa simples, simpática e carinhosa.
“Convivemos durante sete, oito anos como estudantes. Dentro da ordem foi uma pessoa sempre ligada à educação. Antes de entrar para a ordem tinha cargo de confiança num banco. Largou tudo para vir”, comenta. Seu exemplo, São Francisco, também renunciou a todos os bens. Seu hábito era como de camponês, ressalta o padre de Agudos.
Aliás, para ser franciscano, não é obrigatório ser sacerdote. “Tem, em primeiro lugar, a vontade de ser franciscano, ser irmão, ser frade. Na fraternidade e em qualquer lugar em que os franciscanos convivem, sacerdotes e não sacerdotes, ajudam-se mutuamente, animam-se no mesmo caminho, convivem fraternalmente. Sua vida é uma vida de irmãos”, explica o site da Província Franciscana da Imaculada Conceição.
O beato Papa João XXIII foi o último papa franciscano. Esteve à frente da Igreja Católica até junho de 1963, após permanecer por quase cinco anos como santo padre. Quarenta e quatro anos antes, também foi papa o franciscano Pio X. No total, foram oito os papas da fraternidade, que conta com cerca de 30 bispos no Brasil.