Peço licença aos leitores para usar este espaço em homenagem a um amigo, Giulite Coutinho, empresário, esportista, que nos deixou no início deste mês de abril, para mim alguém que merece ser lembrado como um herói nacional. Ele foi um daqueles heróis autênticos dos anos 60 e 70 do século passado, que se engajaram na árdua aventura de abrir mercados para as exportações brasileiras, especialmente para os produtos da indústria que tinham dificuldade de disputar os mercados externos. À época, um dos grandes desafios era o de despertar no meio empresarial uma nova mentalidade exportadora.
Não muitas pessoas devem lembrar-se do grau de indigência do nosso comércio exterior na década de 60 quando Giulite, industrial e exportador no Rio de Janeiro (nascido em Rio Branco na Zona da Mata mineira), reuniu um pequeno grupo de empresários da Guanabara, de São Paulo e Minas Gerais e juntos criaram a Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB). O objetivo era trazer o maior número de empresas para se engajar no esforço exportador que o governo vinha estimulando fortemente.
Com a taxa de crescimento do PIB se aproximando dos 10% anuais, estimava-se que o volume das exportações precisava crescer no mínimo 15% para afastar a inevitável crise de financiamento externo que tantas vezes se repetira em nossa história. O governo vinha fazendo a sua parte, mas o esforço decisivo, como tinha que ser, era na cooptação do setor privado, no despertar do espírito animal dos empresários. Eles acreditaram, confiaram nas políticas do governo. Arriscaram seus patrimônios e foram brigar na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, no Oriente Árabe e na África, deslocando a concorrência e realizando seus lucros. Foram muitos esses guerreiros, poderia citar uma centena deles que se sentiriam honrados em unir-se a essa homenagem a Giulite Coutinho. Ele a merece porque foi um líder corajoso e competente, que comandou algumas das batalhas decisivas para firmar a mentalidade exportadora no setor produtivo brasileiro. Chefiou a delegação de empresários à República Popular da China em 1972, quando ainda não tínhamos restabelecido as relações diplomáticas com o regime comunista; presidiu inúmeras outras missões comerciais importantes na Europa, no Oriente Médio, na costa oeste dos Estados Unidos, que resultaram em novas oportunidades de exportação para o Brasil. Retornou inúmeras vezes à China e presidiu a missão que convidou oficialmente autoridades chinesas a visitar o Brasil, em 1974, o que foi um passo importante para o reatamento pleno das relações entre os dois países.
Por onde esteve, Giulite conquistou amigos. Ele tinha realmente essa qualidade rara de cultivar amizades. Era atuante em organismos nacionais e internacionais, como vice-presidente do Comitê Brasileiro da Câmara de Comércio Internacional. E se dedicava intensamente a sua paixão pelo esporte, tendo presidido o Conselho Nacional do Desporto e a Confederação Brasileira de Futebol, nos anos de 1979 a 1986.
Era um homem que se distinguia pelo comportamento elegante e sempre bem humorado. Não tive oportunidade de acompanhar de perto sua trajetória nos meios esportivos, mas guardei a expressão utilizada por um famoso jogador da seleção brasileira de futebol, nos tempos em que Giulite comandava a CBF, que simplificou bem as coisas dizendo: “Ele é um fidalgo”. Existem poucos fidalgos hoje em dia. O meu amigo Giulite foi um deles.
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@uol.com.br